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O Guarani: Parte IV

QUARTA PARTE

A  CATÁSTROFE

I  ARREPENDIMENTO

Quando Loredano afastou‑se de João Feio que o acabava de ameaçar, chamou quatro companheiros em que mais confiava, e retirou‑se com eles para a despensa.

Fechou a porta a fim de interceptar a comunicação com os aventureiros e poder tranqüilamente tratar o negocio que tinha em mente.

Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da véspera: as palavras de ameaça há pouco proferidas lhe revelaram que o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem que recuasse diante de um obstáculo e deixasse roubarem‑lhe a esperança, que nutria desde tanto tempo.

Resolveu fazer as coisas rapidamente e executar naquele mesmo dia o seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavam para levar ao cabo a empresa que projetara.

Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros à sala que tocava com o oratório e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição, minando a parede que os separava da família.

— Amigos, disse o italiano, estamos numa posição desesperada; não temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos de sucumbir.

Os aventureiros abaixaram a cabeça e não responderam; sabiam que aquela era a triste verdade.

— A morte que nos espera é horrível; serviremos de pasto a esses bárbaros que se alimentam de carne humana; nossos corpos sem sepultura cevarão os instintos ferozes dessa horda de canibais!...

A expressão do horror se pintou na fisionomia daqueles homens, que sentiram um calafrio percorrer‑lhes os membros e penetrar até à medula dos ossos.

Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos decompostos:

— Tenho porém um meio de salvar‑vos.

— Qual? perguntaram todos a uma voz.

— Esperai. Posso salvar‑vos; mas isto não quer dizer que esteja disposto a fazê‑lo.

— Por que razão?

— Por quê?... Porque todo o serviço tem o seu preço.

— Que exigis então? disse Martim Vaz.

— Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, suceda o que suceder.

— Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos meus companheiros.

— Sim! exclamaram os outros.

— Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento?

— Não; mas vós nos direis.

— Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atirá-la dentro; entrar nesta sala, e matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa.

— E essa pessoa...

— É a filha de D. Antônio de Mariz, Cecília. Se algum de vós deseja a outra, pode tomá‑la; eu vo‑la dou.

— E depois disso feito?

— Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros e atacamos os Aimorés.

— Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; há pouco dissestes que não temos força para resistir‑lhes.

— Decerto! acudiu Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.

— Como? disseram os aventureiros desconfiados.

O italiano sorriu.

— Quando disse que atacaremos o inimigo, não falei claro; queria dizer que os outros o atacarão.

— Não vos entendo ainda; falai mais claro.

— Ai vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediência.

— Até aqui vamos bem.

— Isto feito uma das bandas sairá da casa para fazer uma sortida enquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo, é um estratagema já velho e que deveis conhecer: meter o inimigo entre dois fogos.

— Adiante; continuai.

— Como a expedição de sair é a mais perigosa e arriscada, tomo‑a sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Somente em lugar de marchar sobre o inimigo, marchamos sobre o mais próximo povoado.

— Oh! exclamaram os aventureiros.

— Sob pretexto de que os selvagens podem cortar‑nos a entrada da casa por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem olhar atrás; e prometo‑vos que nos salvaremos.

— Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos companheiros nas mãos dos inimigos!

— Que quereis? A morte de uns é necessária para a vida dos outros; este mundo é assim e não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com ele.

— Nunca! Não faremos isso! É uma vilania!

— Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o o que vos aprouver. Ficai; quando vos arrependerdes será tarde.

— Mas ouvi...

— Não; não conteis já comigo. Julguei que falava a homens a quem valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus.

— Se não fora uma traição...

— Que falais em traição!... replicou o italiano com arrogância. Dizei‑me, credes vós que algum escapará daqui na posição em que nos achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem alguns.

Os aventureiros pareceram abalados por este argumento.

— Eles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoístas, não terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que sua morte foi útil aos seus companheiros, e não estéril como deve ser se ficarmos todos de braços cruzados.

— Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai conosco, acudiu um aventureiro.

— Contudo levarei sempre um remorso, disse outro.

— Faremos dizer uma missa por sua alma.

— Bem lembrado! respondeu o italiano.

Os aventureiros foram ajudar o seu companheiro na demolição surda da parede, e Loredano ficou só, retirado a um canto.

Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cincos homens; depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu gibão.

Na parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual ele sacou um pergaminho dobrado ao comprido: era o famoso roteiro das minas de prata.

Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou‑se na sua memória, não para deixar‑lhe o remorso, mas para excitá‑lo a prosseguir em busca desse tesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar.

Foi tirado da sua distração por um dos aventureiros, que se achegara para ele despercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel, dirigiu‑lhe a palavra:

— Não podemos derrubar a parede.

— Por quê? perguntou Loredano erguendo‑se. Está segura?

— Não é isso, basta um empurrão; mas o oratório?

— Que tem o oratório?

— Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são coisas que se atire ao chão! Se tão danada tentação nos tomasse, pediríamos a Deus que nos livrasse dela.

Loredano desesperado dessa nova resistência, cuja força ele conhecia, passeava pela sala de uma ponta à outra.

— Estúpidos! murmurava ele. Basta um fragmento de madeira um pouco de argila para fazê‑los recuar! E dizem que são homens! Animais sem inteligência, que nem sequer têm o instinto da conservação!...

Alguns momentos decorreram; os aventureiros parados esperavam a resolução do seu chefe.

— Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para eles; pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai‑me quando for tempo.

Enquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes comunicava as revelações de mestre Nunes.

Quando eles souberam que Loredano era um frade que abjurara dos seus votos, ergueram‑se furiosos, e quiseram procurá‑lo e espedaçá‑lo.

— Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que ele deve acabar; a sua morte há de ser uma punição, uma terrível punição. Deixai‑me arranjar isto.

— Para que mais demora? respondeu Vasco Afonso.

— Prometo‑vos que não haverá demora; hoje mesmo será condenado; amanhã receberá o castigo de seus crimes.

— E por que não hoje?

— Deixemos‑lhe o tempo de arrepender‑se: é preciso que antes de morrer sinta o remorso do que praticou.

Os aventureiros decidiram por fim seguir este conselho, e esperaram que Loredano aparecesse para se apoderarem dele e o condenarem sumariamente.

Passou‑se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sair; era quase meio‑dia.

Os aventureiros estavam desesperados de sede; a sua provisão de água e de vinho, já bastante diminuída depois do sitio dos selvagens, achava‑se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro.

Felizmente descobriram no quarto do italiano algumas garrafas de vinho, que beberam no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade que iam dentro em pouco condenar à pena de morte.

No meio da hilaridade algumas palavras revelavam o arrependimento que começava a se apoderar deles; falavam de ir pedir perdão ao fidalgo, de se reunir de novo a ele, e ajudá‑lo a bater o inimigo.

Se não fosse a vergonha da má ação que tinham praticado, correriam a lançar‑se aos joelhos de D. Antônio de Mariz imediatamente; mas resolveram fazê‑lo quando o principal autor da revolta tivesse recebido o castigo do seu crime.

Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que iam suplicar; seria mais a prova da sinceridade do seu arrependimento.

II  O SACRIFÍCIO

Peri compreendera o gesto da índia; não fez porém o menor movimento para segui‑la.

Fitou nela o seu olhar brilhante e sorriu.

Por sua vez a menina também compreendeu a expressão daquele sorriso e a resolução firme e inabalável que se lia na fronte serena do prisioneiro.

Insistiu por algum tempo, mas debalde. Peri tinha atirado para longe o arco e as flechas, e recostando‑se ao tronco da árvore, conservava‑se calmo e impassível.

De repente o índio estremeceu.

Cecília aparecera no alto da esplanada e lhe acenara; sua mãozinha alva e delicada agitando‑se no ar parecia dizer‑lhe que esperasse; Peri julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora apesar da distancia, brilhar um raio de felicidade.

Quando com os olhos fitos naquela graciosa visão ele esforçava‑se por adivinhar a causa de tão súbita alegria, a índia soltou um segundo grito selvagem, um grito terrível.

Tinha pela direção do olhar do prisioneiro visto Cecília sobre a esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e compreendera vagamente a razão por que Peri recusara a liberdade e o seu amor. Precipitou‑se sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apesar da rapidez desse movimento, quando ela estendia a mão, já Peri tinha posto o pé sobre a arma.

A selvagem, com os olhos ardentes, os lábios entreabertos, trêmula de ciúme  e de vingança, leventou sobre o peito do índio a faca de pedra com que lhe cortara os laços há pouco; mas a arma caiu-lhe da mão, e vacilando apoiou-se no seio que ameaçara.

Peri tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva e sentou-se de novo junto ao tronco da árvore, tranqüilo a respeito de Cecília, que desapareceu da esplanada e estava fora de perigo.

Era a hora em que a sombra das montanhas sobe às encostas e o jacaré deitado sobre a areia se aquece aos raios do sol.

O ar estrugiu com os sons roucos da inúbia e do maracá; ao mesmo tempo um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aimorés, misturou-se com a harmonia sinistra daqueles instrumentos ásperos e retumbantes.

A índia deitada junto da árvore sobressaltou-se, e erguendo-se rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e suplicando-lhe que fugisse. Peri sorriu como da primeira vez; tomando a mão da menina a fez sentar perto dele, e tirou do pescoço a cruz de ouro que Cecília lhe havia dado.

Então começou entre ele e a selvagem uma conversa por acenos de que seria difícil dar uma idéia.

Peri dizia à menina que lhe dava aquela cruz como lembrança, mas que só depois que ele morresse é que devia tirá-la do pescoço. A selvagem entendeu ou julgou entender o que Peri procurava exprimir simbolicamente, e beijou-lhe as mãos em sinal de reconhecimento.

O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavam, e que ela no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.

Nesse momento quatro guerreiros Aimorés dirigiam-se à árvore em que se achava Peri; e segurando as pontas da corda o conduziram ao campo, onde tudo estava já preparado para o sacrifício.

O índio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante dos quatro inimigos, que não perceberam o olhar rápido que nessa ocasião ele lançou às pontas de sua túnica de algodão, torcidas em dois nós pequenos.

O campo cortado em elipse no meio das árvores estava cercado por cento e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de penas.

No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarelas, de aspecto hórrido, preparavam um grande brasido, lavavam a laje que devia servir de mesa, e afiavam as suas facas de ossos e lascas de pedra.

As moças grupadas de um lado guardavam os vasos cheios de vinho e bebidas fermentadas, que ofereciam aos guerreiros quando estes passavam diante delas entoando o canto de guerra dos Aimorés.

A menina que fora incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhara ao lugar do sacrifício, conservava‑se a alguma distancia e olhava tristemente todos esses preparativos; pela primeira vez seu instinto natural parecia revelar‑lhe a atrocidade desse costume tradicional de seus pais, a que ela tantas vezes assistira com prazer.

Agora que ia representar como heroína no drama terrível, e como esposa do prisioneiro devia acompanhá‑lo até o momento supremo, insultando‑lhe a dor e a desgraça, o seu coração confrangia‑se porque realmente amava Peri, tanto quanto era possível a uma natureza como a sua amar.

Chegados ao campo, os selvagens que conduziam o prisioneiro passaram as pontas da corda ao tronco de duas árvores, e esticando o laço o obrigaram a ficar imóvel no meio do terreiro. Os guerreiros desfilaram em roda entoando o canto da vingança; as inúbias retroaram de novo; os gritos confundiram‑se com o som dos maracás, e tudo isso formou um concerto horrível.

À medida que se animavam, a cadência apressava‑se: de modo que a marcha triunfal dos guerreiros se tornava uma dança macabra, uma corrida veloz, uma valsa fantástica, em que todos esses vultos horrendos, cobertos de penas que brilhavam à luz do sol, passavam como espíritos satânicos envoltos na chama eterna.

A cada volta que fazia esse sabbat um dos guerreiros destacava‑se do circulo, e adiantando‑se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e conjurava‑o a que desse provas de sua coragem, de sua força e de seu valor.

Peri, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdém a ameaça e o insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos aqueles guerreiros fortes e armados, ele, o prisioneiro, o inimigo que ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o único vencedor.

Talvez pareça isso incompreensível; mas o fato é que Peri o pensava, e que só o segredo que ele guardava no fundo de sua alma podia explicar a razão desse pensamento e a tranqüilidade com que esperava o suplício.

A dança continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes libações, quando de repente tudo emudeceu, e o mais profundo silêncio reinou no campo dos Aimorés.

Todos os olhos se voltaram para uma cortina de folhas que ocultava uma espécie de cabana selvagem, construída a um lado do campo em face do prisioneiro.

Os guerreiros se afastaram, as folhas se abriram, e entre aquelas franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas peles de tapir ligadas sobre os ombros cobriam seu corpo como uma túnica; um grande cocar de penas escarlates ondeava sobre a sua cabeça e realçava‑lhe a grande estatura.

Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma coleira feita com as penas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavam como dois fogos vulcânicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tangapema coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma espécie de buzina formada de um osso enorme da canela de algum inimigo morto em combate.

Chegando à entrada do campo o velho selvagem levou à boca o seu instrumento bárbaro, e tirou dele um som estrondoso: os Aimorés saudaram com gritos de alegria e de entusiasmo o aparecimento do vencedor.

Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da vitima, o matador do prisioneiro; seu braço devia consumar a grande obra da vingança, esse sentimento que constituía para aqueles povos fanáticos a verdadeira glória.

Apenas cessaram as aclamações com que foi acolhida a entrada do vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavam adiantou‑se e fincou na extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo, logo que ela fosse decepada do corpo.

Ao mesmo tempo a jovem índia que servia de esposa ao prisioneiro, tirou o tacape que pendia do ombro de seu pai, e caminhando para Peri desligou‑lhe os braços e ofereceu‑lhe a arma, fitando nele um olhar triste, ardente e cheio de amarga exprobração.

Nesse olhar dizia‑lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe oferecera, e com o amor a vida e a liberdade, ela não seria obrigada pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.

Com efeito esse oferecimento que os selvagens faziam ao prisioneiro, de uma arma para se defender, era uma ironia cruel: ligado pelo laço que o prendia, imóvel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar o tacape no ar, se não podia atingir os inimigos?

Peri aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando‑a aos pés cruzou os braços e esperou o cacique que avançava lentamente, terrível e ameaçador.

Chegando em face do prisioneiro, a fisionomia do velho esclareceu‑se com um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.

— Sou teu matador! disse em guarani.

Peri não se admirou ouvindo a sua bela língua adulterada pelos sons roucos e guturais que saiam dos lábios do selvagem.

— Peri não te teme!

— És goitacá?

— Sou teu inimigo!

— Defende‑te!

O índio sorriu:

— Tu não mereces.

Os olhos do velho fuzilaram de raiva: a mão cerrou o punho da tangapema; mas ele reprimiu logo o assomo da cólera.

A esposa do prisioneiro atravessou o campo e ofereceu ao vencedor um grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananás ainda espumante.

O selvagem virou de um trago a bebida aromática, e endireitando o seu alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:

— Guerreiro goitacá, tu és forte e valente; tua nação é temida na guerra. A nação Aimoré é forte entre as mais fortes, valente entre as mais valentes. Tu vais morrer.

O coro dos selvagens respondeu a esta espécie de canto guerreiro, que preludiava o tremendo sacrifício.

O velho continuou:

— Guerreiro goitacá, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao guerreiro Aimoré; teu corpo aos filhos de sua tribo; tuas entranhas servirão ao banquete da vingança Tu vais morrer.

Os gritos dos selvagens responderam de novo: e o canto se prolongou por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aimoré e as ações de valor de seu chefe.

Enquanto o velho falava, Peri o escutava com a mesma calma e impassibilidade; nem um dos músculos do seu rosto traia a menor emoção; seu olhar límpido e sereno ora fitava‑se no rosto do cacique, ora volvia‑se pelo campo examinando os preparativos do sacrifício.

Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havia na ponta de seu saio de algodão.

Quando o velho acabou de falar, encarou o prisioneiro, e recuando dois passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda. Os Aimorés ansiosos esperavam; as velhas com as suas navalhas de pedra estremeciam de impaciência; as jovens índias sorriam, enquanto a noiva do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espetáculo horrível que ia apresentar‑se.

Nesse momento Peri levando as duas mãos aos olhos cobriu o rosto, e curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição sem fazer um movimento que revelasse a menor perturbação.

O velho sorriu.

— Tens medo!

Ouvindo estas palavras, Peri ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma expressão de júbilo e serenidade irradiava no seu rosto; dir‑se‑ia o êxtase dos mártires da religião que na última hora, através do túmulo, entrevêem a felicidade suprema.

A alma nobre do índio prestes a deixar a terra parecia exalar já do seu invólucro; e pousando nos seus lábios, nos seus olhos, na sua fronte, esperava o momento de lançar‑se no espaço para ir se abrigar no seio do Criador.

Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céu, como se a morte que ia cair sobre ele fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens sorrindo‑lhe. Era que nesse último sonho da existência via a linda imagem de Cecília, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.

— Fere!... disse Peri ao velho cacique.

Os instrumentos retumbaram de novo; os gritos e os cantos se confundiram com aqueles sons roucos, e reboaram pela floresta como o trovão rolando pelas nuvens.

A tangapema coberta de plumas girou no ar cintilando aos raios do sol que feriam as cores brilhantes.

No meio desse turbilhão ouviu‑se um estrondo, uma ânsia de agonizante e o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro instante se pudesse perceber o que havia passado.

III  SORTIDA

O  estrondo que se ouviu, fora causado por um tiro que partiu dentre as árvores.

O velho Aimoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu‑se como o ipê da floresta cortada pelo raio.

A morte tinha sido quase instantânea; apenas um estertor de agonia ressoou no seu peito largo e ainda há pouco vigoroso; caíra já cadáver.

Enquanto os selvagens permaneciam estáticos diante do que se passava, Álvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava‑se no meio do campo. De dois talhos rápidos cortou os laços de Peri; e com as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si calam sobre ele bramindo de furor.

Imediatamente ouviu‑se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo à sua frente Aires Gomes saltaram por sua vez com a arma em punho, e começaram a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada.

Não pareciam homens, e sim dez demônios, dez máquinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; enquanto a sua mão direita imprimia à lamina da espada mil voltas, que eram outros tantos golpes terríveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiráveis.

O escudeiro e seus homens tinham feito um semicírculo em roda de Álvaro e de Peri e apresentavam uma barreira de ferro e fogo às ondas de inimigos que bramiam, recuavam, e lançavam‑se de novo quebrando‑se de encontro a esse dique.

No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos aventureiros, Peri de braços cruzados olhava impassível para tudo o que se passava em torno dele. Compreendia então o gesto que sua senhora há pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança e de alegria que ele julgara ver brilhar no seu semblante.

Com efeito no primeiro momento de aflição Cecília se lançara para ver o índio, chamá‑lo ainda, e suplicar‑lhe mesmo que não expusesse a sua vida inutilmente.

Não tendo mais visto Peri, a menina sentiu um desespero cruel; voltou‑se para seu pai e com as faces orvalhadas de lágrimas, com o seio anelante, com a voz cheia de angústia, pediu‑lhe que salvasse Peri.

D. Antônio de Mariz antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já tinha se lembrado de chamar os seus companheiros fiéis, e seguido por eles correr contra o inimigo, e livrar o índio da morte certa e inevitável que procurava.

Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda a prova; sabia que aquela empresa era de um risco imenso, e não queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrifício que ele só, faria de bom grado à amizade que votava a Peri.

Os aventureiros que se haviam dedicado com tanta constância à salvação de sua família, não tinham as mesmas razões para se arriscarem por causa de um homem que não pertencia à sua religião, e que não tinha com eles o menor laço de comunidade.

D. Antônio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu escrúpulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou consolá‑la, aflito por não poder satisfazer imediatamente a sua vontade.

Álvaro, que contemplava esta cena pungente a alguma distancia, no meio dos aventureiros fiéis e dedicados que tinha sob suas ordens tomou repentinamente uma resolução.

Seu coração partia‑se vendo Cecília sofrer; e embora amasse Isabel, a sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votara os seus primeiros sonhos, uma afeição pura, respeitosa, uma espécie de culto.

Era uma coisa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os sentimentos que a envolviam sofriam a influência de sua inocência, e iam a pouco e pouco depurando‑se e tomando um quer que seja de ideal, um cunho de adoração.

O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em face dela, adormecida na sua casta isenção, emudecera e hesitara um momento se devia manchar a santidade do seu pudor.

Álvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigiu‑se para o grupo que formavam D. Antônio de Mariz e sua filha.

— Consolai‑vos, D. Cecília, disse o moço, e esperai!

A menina fitou nele os olhos azuis cheios de reconhecimento; aquela palavra era ao menos uma esperança.

— Que contais fazer? perguntou D. Antônio ao cavalheiro.

— Tirar Peri das mãos do inimigo!

— Vós!... exclamou Cecília.

— Sim, D. Cecília, disse o moço; aqueles homens dedicados vendo a vossa aflição sentiram‑se comovidos e desejam poupar‑vos uma justa mágoa.

Álvaro atribuía a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando eles não tinham feito senão aceitá‑la com entusiasmo.

Quanto a D. Antônio de Mariz sentira uma intima satisfação ouvindo as palavras do moço: seus escrúpulos cessavam desde que seus homens espontaneamente se ofereciam para realizar aquela difícil empresa.

— Me cedereis uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastam, continuou o moço, dirigindo‑se ao fidalgo; ficareis com o resto para defender‑vos no caso de algum ataque imprevisto.

— Não, respondeu D. Antônio; levai‑os todos, já que se prestam a essa tão nobre ação, que não me animava a exigir de sua coragem. Para defender a minha família, basto eu, apesar de velho.

— Desculpai‑me, Sr. D. Antônio, replicou Álvaro; mas é uma imprudência a que me oponho; pensai que a dois passos de vós existem homens perdidos, que nada respeitam e que espiam o momento de fazer‑vos mal.

— Sabeis se prezo e estimo este tesouro cuja guarda me foi confiada por Deus. Julgais que haja neste mundo alguma coisa que me faça expô‑lo a um novo perigo? Acreditai‑me: D. Antônio de Mariz, só, defenderá sua família, enquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.

— Confiais demasiado em vossas forças!...

— Confio em Deus, e no poder que ele colocou em minha mão: poder terrível que quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos com a rapidez do raio.

A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha‑se revestido de uma solenidade imponente; o seu rosto iluminou‑se com uma expressão de heroísmo e de majestade que realçou a beleza severa do seu busto venerável.

Álvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro enquanto Cecília, pálida e palpitante das emoções que sentira, esperava com ansiedade a decisão que iam tomar.

O moço não insistiu e sujeitou‑se à vontade de D. Antônio de Mariz:

— Obedeço‑vos; iremos todos e voltaremos mais pronto.

O fidalgo apertou‑lhe a mão:

— Salvai‑o!

— Oh! sim, exclamou Cecília, salvai‑o, Sr. Álvaro.

— Juro‑vos, D. Cecília, que só a vontade do céu fará que eu não cumpra a vossa ordem.

A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; toda a sua alma partiu‑se num sorriso divino.

Álvaro inclinou‑se diante dela; foi juntar‑se aos aventureiros; e deu‑lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na sala então deserta para tomar as suas armas, Isabel, que já sabia do seu projeto, correu a ele pálida e assustada.

— Ides bater‑vos? disse ela com a voz trêmula.

— Em que isso vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo

— De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é diferente!

— Não vos assusteis, Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.

O moço passou a clavina a tiracolo e quis sair.

Isabel tomou‑lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos cintilavam com um fogo estranho; suas faces estavam incendiadas de vivo rubor.

O moço procurou tirar as mãos daquela pressão ardente e apaixonada: — Isabel, disse ele com uma doce exprobração; quereis que falte à minha palavra, que recue diante de um perigo?

— Não! Nunca eu vos pediria semelhante coisa. Era preciso que não vos conhecesse, e que não... vos amasse!...

— Mas então deixai‑me partir.

— Tenho uma graça a suplicar‑vos.

— De mim?... Neste momento?

— Sim! Neste momento!... Apesar do que me dizíeis há pouco, apesar do vosso heroísmo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitável.

A voz de Isabel tornou‑se balbuciante:

— Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!

— Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a comoção que se apoderava dele.

— Prometestes fazer‑me a graça que vos pedi.

— Qual?

— Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...

A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.

— Falai!... Falai!...

— Antes de nos separarmos, eu vos suplico, deixai‑me uma lembrança vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!

E a menina caiu de joelhos aos pés de Álvaro, ocultando seu rosto que o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brilhante carmim.

Álvaro ergueu‑a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando seus lábios ao ouvido proferiu, ou antes, murmurou uma frase.

O semblante de Isabel expandiu‑se; uma auréola de ventura cingiu a sua fronte; seu seio dilatou‑se e respirou com a embriaguez do coração feliz.

— Eu te amo!

Era a frase que Álvaro deixara cair na sua alma, e que a enchia toda como um eflúvio celeste, como um canto divino que ressoava nos seus ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.

Quando ela saiu deste êxtase, o moço tinha saído da sala, e unia‑se aos seus companheiros prontos a marchar.

Foi nessa ocasião que Cecília, chegando imprudentemente à paliçada, fez a Peri um aceno que lhe dizia esperasse.

A pequena coluna partiu comandada por Álvaro e por Aires Gomes, que depois de três dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do fidalgo.

Quando os bravos combatentes desapareceram na floresta, D. Antônio de Mariz recolheu‑se com sua família para a sala, e sentando‑se na sua poltrona esperou tranqüilamente. Não mostrava o menor temor de ser atacado pelos aventureiros revoltados, que estavam a alguns passos de distancia apenas, e que não deixariam de aproveitar um ensejo tão favorável.

D. Antônio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechado as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recomendou silêncio a fim de que nenhum rumor lhe escapasse.

Vigilante e atento, o fidalgo refletia ao mesmo tempo sobre o fato que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.

Conhecia Peri e não podia compreender como o índio, sempre tão inteligente e tão perspicaz, se deixara levar por uma louca esperança a ponto de ir ele só atacar os selvagens.

A extrema dedicação do índio por sua senhora, o desespero da posição em que se achavam, podia explicar essa alucinação, se o fidalgo não soubesse quanto Peri tinha a calma, a força e o sangue‑frio que tornam o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas reflexões foi que havia no procedimento de Peri alguma coisa que não estava clara e que devia explicar‑se mais tarde.

Ao passo que ele se entregava a esses pensamentos, Álvaro tinha feito uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser percebido.

Quando avistou Peri a algumas braças de distancia, o velho cacique levantava a tangapema sobre a sua cabeça.

O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o crânio do selvagem.

IV  REVELAÇÃO

Apenas Álvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu‑se livre dos inimigos que o atacavam, voltou a Peri, que assistia imóvel a toda esta cena.

— Vinde! disse o moço com autoridade.

— Não! respondeu o índio friamente.

— Tua senhora te chama!

Peri abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.

— Dize à senhora que Peri deve morrer; que vai morrer por ela. E tu parte, porque senão seria tarde.

Álvaro olhou a fisionomia inteligente do índio para ver se descobria nela algum sinal de perturbação de espírito; porque o moço não compreendia, nem podia compreender a causa dessa obstinação insensata.

O rosto de Peri, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma resolução firme, inabalável, tanto mais profunda quanto se mostrava sob uma aparência de sossego e tranqüilidade.

— Assim, tu não obedeces à tua senhora?

Peri custou a arrancar a palavra dos lábios.

— A ninguém.

Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado dele; voltando‑se viu a índia que lhe haviam destinado por esposa caindo atravessada por uma flecha. O tiro fora destinado a Peri por um dos selvagens; e a menina lançando‑se para cobrir o corpo daquele que amara uma hora, recebera a seta no peito.

Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volveram a Peri um último olhar; e cerrando tornaram a abrir‑se já sem vida e sem brilho. Peri sentiu um movimento de piedade e simpatia vendo essa vitima de sua dedicação, que como ele sacrificava sem hesitar a sua existência para salvar aquele a quem amava.

Álvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar para seus homens que batiam‑se valentemente com os Aimorés fez um aceno a Aires Gomes.

— Escuta, Peri; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra; jurei a Cecília levar‑te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste lagar.

— Faze o que quiseres! Peri não sairá daqui.

— Vês estes homens?... são os únicos defensores que restam à tua senhora; se todos eles morrem, bem sabes que é impossível que ela se salve.

Peri estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois sem dar tempo a que o seguissem, lançou‑se entre as árvores.

D. Antônio de Mariz e sua família, tendo ouvido os tiros de arcabuzes, esperavam com ansiedade o resultado da expedição.

Dez minutos haviam decorrido na maior impaciência, quando sentiram tocar na porta e ouviram a voz de Peri; Cecília correu, e o índio ajoelhou‑se a seus pés pedindo‑lhe perdão.

O fidalgo, livre do pesar de perder um amigo, assumira a sua costumada severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.

— Cometeste uma grande imprudência, disse ele ao índio; fizeste sofrer teus amigos; expuseste a vida daqueles que te amam; não precisas de outra punição além desta.

— Peri ia salvar‑te!

— Entregando‑te nas mãos do inimigo?

— Sim!

— Fazendo‑te matar por eles?

— Matar e...

— Mas qual era o resultado dessa loucura?

O índio calou‑se.

— É preciso explicares‑te, para que não julguemos que o amigo inteligente e dedicado de outrora tornou‑se um louco e um rebelde.

A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda agravava mais a repreensão severa que ela encerrava.

Peri sentiu uma lágrima umedecer‑lhe as pálpebras:

— Obrigas Peri a dizer tudo!

— Deves fazê‑lo, se desejas reabilitar‑te na estima que te votava, e que sinto perder.

— Peri vai falar.

Álvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não eram felizmente muito graves.

Cecília apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou‑lhe num olhar toda a sua alma.

As pessoas presentes se gruparam ao redor da poltrona de D. Antônio, em face do qual Peri de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado como um criminoso, ia justificar‑se.

Dir‑se‑ia que confessava uma ação indigna e vil; ninguém adivinhava que sublime heroísmo, que concepção gigantesca havia neste ato, que todos condenavam como uma loucura.

Ele começou:

“Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a erguê‑lo, chamou Peri e disse:

‘Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra‑te que tua carne é a minha carne; e o teu sangue e o meu sangue. Teu corpo não deve servir ao banquete do inimigo.’

“Ararê disse, e tirou suas contas de frutos que deu a seu filho: estavam cheias de veneno; tinham nelas a morte.

“Quando Peri fosse prisioneiro, bastava quebrar um fruto, e ria do vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.

“Peri viu que a senhora sofria, e olhou as suas contas; teve uma idéia; a herança de Ararê podia salvar a todos.

“Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia um inimigo vivo; os brancos e os índios não te ofenderiam mais.”

Toda a família ouvia esta narração com uma surpresa extraordinária; compreendiam dela que havia em tudo isto uma arma terrível— o veneno; mas não podiam saber os meios de que o índio se servira ou pretendia servir‑se para usar desse agente de destruição.

— Acaba! disse D. Antônio; por que modo contavas então destruir o inimigo?

— Peri envenenou a água que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia servir ao banquete dos Aimorés!

Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo índio em um tom simples e natural.

O plano que Peri combinara para salvar seus amigos acabava de revelar‑se em toda a sua abnegação sublime e com o cortejo de cenas terríveis e monstruosas que deviam acompanhar a sua realização.

Confiado nesse veneno que os índios conheciam com o nome de curare, e cuja fabricação era um segredo de algumas tribos, Peri com a sua inteligência e dedicação descobrira um meio de vencer ele só aos inimigos, apesar do seu número e da sua força.

Sabia a violência e o efeito pronto daquela arma que seu pai lhe confiara na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcela desse pó sutil para destruir em algumas horas a organização a mais forte e a mais robusta. O índio resolveu pois usar deste poder que na sua mão heróica ia tornar‑se um instrumento de salvação e o agente de um sacrifício tremendo feito à amizade.

Dois frutos bastaram; um serviu para envenenar a água e as bebidas dos aventureiros revoltados; e o outro acompanhou‑o até o momento do suplício, em que passou de suas mãos aos seus lábios.

Quando o cacique vendo‑o cobrir o rosto perguntou‑lhe se tinha medo, Peri acabava de envenenar o seu corpo, que devia daí a algumas horas ser um germe de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.

O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração, não era somente o heroísmo do sacrifício; era a beleza horrível da concepção, era o pensamento superior que ligara tantos acontecimentos, que os submetera à sua vontade, fazendo‑os suceder‑se naturalmente e caminhar para um desfecho necessário e infalível.

Porque, é preciso notar, a menos de um fato extraordinário, desses que a previdência humana não pode prevenir, Peri quando saiu da casa tinha a certeza de que as coisas se passariam como de fato se passaram.

Atacando os Aimorés a sua intenção era excitá‑los à vingança; precisava mostrar‑se forte, valente, destemido, para merecer que os selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu ódio. Com a sua destreza e com a precaução que tomara tornando o seu corpo impenetrável, contava evitar a morte antes de poder realizar o seu projeto; quando mesmo caísse ferido, tinha tempo de passar o veneno aos lábios.

A sua previsão porém não o iludiu; tendo conseguido o que desejava, tendo excitado a raiva dos Aimorés, quebrou a sua arma e suplicou a vida ao inimigo; foi de todo o sacrifício o que mais lhe custou.

Mas assim era preciso; a vida de Cecília o exigia; a morte que o havia respeitado até então podia surpreendê‑lo; e Peri queria ser feito prisioneiro, como foi, e contava ser.

O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de cativá‑lo para servir ao festim da vingança, era para Peri uma garantia e uma condição favorável à execução do seu projeto.

Quanto à peripécia final, que a intervenção de Álvaro obstara, não fora esse incidente imprevisto, que seria igualmente infalível.

Segundo as leis tradicionais do povo bárbaro, toda a tribo devia tomar parte no festim: as mulheres moças tocavam apenas na carne do prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavam como um manjar delicado, adubado pelo prazer da vingança; e as velhas com a gula feroz das harpias que se cevam no sangue de suas vítimas.

Peri contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o corpo envenenado da vitima levaria a morte às entranhas de seus algozes, e que ele só destruiria toda uma tribo, grande, forte, poderosa, apenas com o auxilio dessa arma silenciosa.

Pode‑se agora compreender qual tinha sido o seu desespero vendo esse plano inutilizado; depois de ter desobedecido à sua senhora, depois de haver tudo realizado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que ia salvar a todos caia, mudar‑se de repente a face das coisas e ver destruída a sua obra, filha de tanta meditação!

Ainda assim quis resistir, quis ficar, esperando que os Aimorés continuariam o sacrifício; mas conheceu que a resolução de Álvaro era inabalável como a sua; que ia ser a causa da morte de todos os defensores fiéis de D. Antônio, sem ter já a certeza de sua salvação.

No primeiro momento que sucedeu à confissão de Peri, todos os atores desta cena, pálidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos cravados no índio, duvidavam ainda do que tinham ouvido; o espírito horrorizado não formulava uma idéia; os lábios trêmulos não achavam uma palavra.

D. Antônio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração que lhe causava aquela ação heróica, e das emoções produzidas por essa idéia ao mesmo tempo sublime e horrível, uma circunstância o tinha sobretudo impressionado.

Os aventureiros iam ser vitimas de envenenamento; e por maior que fosse o grau de baixeza e aviltamento a que tinham descido esses homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia sofrer semelhante homicídio.

Ele os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte à altura de um exemplo; enquanto que a vingança a fazia descer ao nível do assassinato.

— Vai, Aires Gomes, gritou D. Antônio ao seu escudeiro; corre e previne a esses desgraçados, se ainda é tempo!

V  O PAIOL

Cecília ouvindo a voz de seu pai, estremeceu como se acordasse de um sonho.

Atravessou o aposento com passo vacilante, e chegando‑se a Peri, fitou nele os seus lindos olhos azuis com uma expressão indefinível.

Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração imensa que lhe causava a ação heróica do índio; a dor profunda que sentia pela sua perda; e uma exprobração doce por não ter ele ouvido as suas súplicas.

O índio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo realizado o seu desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma loucura.

Sentia‑se criminoso; e de toda a sua ação heróica e sublime para os outros, só lhe restava o pesar de ter ofendido Cecília, e de lhe haver causado inutilmente um desgosto.

— Peri, disse a menina com desespero, por que não fizeste o que tua senhora te pedia?...

O índio não sabia o que responder; temia ter perdido a afeição de Cecília, e essa idéia martirizava os últimos momentos que lhe restavam a viver.

— Cecília não te disse, continuou a menina soluçando, que ela não aceitaria a salvação com o sacrifício de tua vida?

— Peri já te pediu que perdoasses! murmurou o índio.

— Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje sofrer a tua senhora!... Mas ela te perdoa.

— Ah!... exclamou Peri, cuja fisionomia iluminou‑se.

— Sim!... Cecília te perdoa tudo que sofreu, e tudo que vai sofrer! Mas será por pouco tempo...

A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e esta idéia quase a consolava.

Não pôde acabar porém; a palavra ficou‑lhe presa aos lábios, trêmula, convulsa: seus olhos se fixavam em Peri com um sentimento de terror e de espanto.

A fisionomia do índio se tinha decomposto; seus traços nobres alterados por contrações violentas, o rosto encovado, os lábios roxos, os dentes que se entrechocavam, os cabelos eriçados davam‑lhe um aspecto medonho.

— O veneno!... gritaram os espectadores dessa cena horrorizados.

Cecília fez um esforço extraordinário, e lançando‑se para o índio, procurou reanimá‑lo.

— Peri!... Peri!... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos geladas de seu amigo.

— Peri vai te deixar para sempre, senhora.

— Não!... Não!... exclamou a menina fora de si. Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és mau, muito mau!... Se estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!...

As lágrimas orvalhavam as faces da menina, que no seu desespero não sabia o que dizia. Eram palavras entrecortadas, sem sentido; mas que revelavam a sua angústia.

— Tu queres que Peri viva, senhora? disse o índio com a voz comovida.

— Sim!... respondeu a menina suplicante. Quero que tu vivas!

— Peri viverá!

O índio fez um esforço supremo, e restituindo um pouco de elasticidade aos seus membros entorpecidos, dirigiu‑se à porta e desapareceu.

Todas as pessoas presentes o acompanharam com os olhos e o viram descer à várzea e ganhar a floresta correndo.

A última palavra que ele proferira tinha um momento restituído a esperança a D. Antônio de Mariz; mas quase logo a dúvida apoderou‑se do seu espírito; julgou que o índio se iludia.

Cecília porém tinha mais do que uma esperança; tinha quase uma certeza de que Peri não se enganara: a promessa de seu amigo lhe inspirava uma confiança profunda. Nunca Peri lhe havia dito uma coisa que se não realizasse; o que parecia impossível aos outros, tornava‑se fácil para sua vontade firme e inabalável, para o poder sobre‑humano, de que a força e a inteligência o revestia.

Quando D. Antônio de Mariz e sua família se recolheram tristemente impressionados, Álvaro, de pé na porta do gabinete, fez um gesto de espanto ao fidalgo, e apontou‑lhe para o oratório.

A parede do fundo, prestes a tombar, oscilava sobre a sua base como uma árvore balançada pelo vento.

D. Antônio sorriu; e ordenando à sua família que entrasse no gabinete, tirou a pistola da cinta, armou‑a e esperou na porta ao lado de Álvaro.

No mesmo instante ouviu‑se um grande estrondo, e no meio da nuvem espessa de pó que se elevou desse montão de ruínas, seis homens precipitaram‑se na sala.

Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu‑se com extraordinária rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou direito ao gabinete onde se achava recolhida a família.

Recuaram, porém, lívidos e trêmulos, horrorizados diante da cena muda e terrível que se apresentava aos seus olhos espantados.

No meio do aposento via‑se um desses grandes vasos de barro vidrado, feitos pelos índios, e que continha pelo menos uma arroba de pólvora. De uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder‑se no fundo do paiol, onde se achavam enterradas todas as munições de guerra do fidalgo.

Duas pistolas, a de D. Antônio de Mariz e a de Álvaro esperavam um movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao vulcão. D. Lauriana, Cecília e Isabel de joelhos, oravam julgando a cada momento ver confundirem‑se no turbilhão todos os espectadores dessa cena.

Era esta a arma terrível de que falara há pouco D. Antônio, quando dizia à Álvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os seus inimigos. O moço compreendeu então a razão por que o fidalgo o tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Peri, julgando‑se bastante forte para defender, ele só, a sua família

Quanto aos aventureiros, lembraram‑se do juramento solene de D. Antônio de Mariz; o fidalgo os tinha a todos fechados na sua mão, e bastava apertar essa mão para esmagá‑los como um torrão de argila. Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quiseram fugir, mas não tiveram animo de dar um passo e ficaram como pregados ao solo.

Ouviu‑se então um rumor de vozes da parte de fora, e Aires Gomes seguido pelos aventureiros apresentou‑se à porta da sala.

Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre ele. Dois dos seus companheiros caíram a seus pés estorcendo‑se em convulsões horríveis, e soltando gritos que metiam dó e compaixão.

A princípio ninguém compreendeu a causa dessa morte súbita e violenta; mas a lembraça do veneno de Peri acudiu logo à memória de alguns e explicou tudo.

Os aventureiros que chegavam guiados por Aires Gomes apoderaram‑se de Loredano e foram ajoelhar‑se confusos e envergonhados aos pés de D. Antônio de Mariz, pedindo‑lhe o perdão de sua falta.

O fidalgo tinha assistido a todos esses acontecimentos que se sucediam tão rapidamente, sem deixar a sua primeira posição; dir‑se‑ia que sobre essas paixões humanas que se debatiam a seus pés ele plainava como um gênio, prestes a vibrar o raio celeste.

— A vossa falta é daquelas que não se perdoam, disse D. Antônio; mas estamos nesse momento extremo em que Deus manda esquecer todas as ofensas. Levantai‑vos e preparemo‑nos todos para morrer como cristãos.

Os aventureiros ergueram‑se, e arrastando Loredano para fora da sala, retiraram‑se para o alpendre, com a consciência aliviada de um grande peso.

A família pôde então, depois de tantas emoções, gozar um pouco de sossego e repouso; apesar da posição desesperada em que se achavam, a reunião dos aventureiros revoltados tinha trazido um fraco vislumbre de esperança.

Só D. Antônio de Mariz não se iludia, e desde aquela manhã tinha conhecido que, quando os Aimorés não o vencessem pelas armas, o venceriam pela fome. Todos os viveres estavam consumidos, e só uma sortida vigorosa podia salvar a família desse martírio que a ameaçava, martírio muito mais cruel do que uma morte violenta.

O fidalgo resolveu esgotar os últimos recursos antes de confessar‑se vencido; queria morrer com a consciência tranqüila de haver cumprido o seu dever e de haver feito o que fosse humanamente possível. Chamou Álvaro e entreteve‑se com o moço durante algum tempo em voz baixa; concertavam um meio de realizar essa idéia, de que dependia toda a esperança de salvação.

Ao mesmo tempo que isto se passava, os aventureiros reunidos em conselho, julgavam a Frei Ângelo di Luca, e o condenavam por um voto unânime.

Proferida a sentença apresentaram‑se diversas opiniões sobre o suplício que devia ser infligido ao culpado; cada um lembrava o gênero de morte o mais cruel; porém a opinião geral adotou a fogueira como o castigo consagrado pela inquisição para punir os hereges.

Fincaram no meio do terreiro um alto poste e o cercaram com uma grande pilha de madeira e outros combustíveis; depois sobre essa pira ligaram o frade, que sofria todos os insultos e todas as injúrias sem proferir uma palavra.

Uma espécie de atonia se apoderara do italiano desde o momento em que os aventureiros o haviam arrastado da sala de D. Antônio de Mariz; ele tinha a consciência do seu crime e a certeza de sua condenação.

Entretanto na ocasião em que o atavam à fogueira, um incidente despertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéia da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ela.

Um dos aventureiros, um dos cinco cúmplices da última conspiração, chegou‑se a Loredano, e tirando‑lhe a cinta que prendia o seu gibão, mostrou‑a aos seus companheiros. O italiano vendo‑se separado do seu tesouro sentiu uma dor muito mais forte do que a que ia sofrer na fogueira; para ele não havia suplício, não havia martírio que igualasse a este.

O que o consolava na sua última hora era a idéia de que esse segredo que possuía, e do qual não pudera utilizar‑se, ia morrer com ele, e ficaria perdido para todos; que ninguém gozaria do tesouro que lhe escapava.

Por isso apenas o aventureiro tirou‑lhe a cinta onde guardava o roteiro; soltou um rugido de cólera e de raiva impotente; seus olhos injetaram‑se de sangue, e seus membros crispando‑se feriram‑se contra as cordas que os ligavam ao poste.

Era horrível de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal e feroz de um hidrófobo; seus lábios espumavam, silvando como a serpente; e seus dentes ameaçavam de longe os seus algozes como as presas do jaguar.

Os aventureiros riram‑se do desespero do frade por ver roubarem‑lhe o seu precioso tesouro, e divertiram‑se em aumentar‑lhe o suplício, prometendo que apenas livres dos Aimorés fariam uma expedição às minas de prata.

A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e disse‑lhe sorrindo:

— Bem sabeis o provérbio: “O bocado não é para quem o faz”.

VI  TRÉGUA

Eram oito horas da noite.

Os aventureiros, sentados no terreiro em roda de um pequeno fogo, esperavam tristemente que cozinhassem alguns legumes destinados à magra ceia.

A penaria tinha sucedido à abundância de outrora; privados da caça, sua alimentação ordinária, estavam reduzidos a simples vegetais. Os seus vinhos e as bebidas fermentadas de que faziam largas libações, tinham sido envenenados por Peri; e foram pois obrigados a deitá‑los fora muito felizes ainda por não terem sido vitimas deles.

Loredano fechando a porta da despensa é que os tinha salvado; apenas dois dos aventureiros que o haviam acompanhado tinham tocado nessas bebidas, e por isso poucas horas depois caíram mortos, como vimos, na ocasião em que iam atacar D. Antônio de Mariz.

Não eram porém essas cenas de lato e a situação critica em que se achavam, que infundiam nesses homens sempre alegres e tão galhofeiros aquela tristeza que não lhes era habitual. Morrer com as armas na mão, batendo‑se contra o inimigo, era para eles uma coisa natural, uma idéia a que a sua vida de aventuras e de perigos os tinha afeito.

O que realmente os entristecia, era não terem uma boa ceia, e um canjirão de vinho diante de si; era o seu estômago que se contraia por falta de alimento, e que tirava‑lhes toda a disposição de rir e de folgar.

A chama avermelhada da fogueira às vezes oscilava ao sopro do vento, e estendendo-se pelo terreiro ia iluminar a alguma distância com o seu frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pira de lenha.

Os aventureiros tinham resolvido demorar o suplício e dar tempo a que o frade se arrepende-se dos seus crimes e se decidisse a morrer como cristão, humilde e penitente; por isso deixaram-lhe a noite para refletir.

Talvez entrasse também nessa resolução um requinte de maldade e de vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que estavam colocados, os seus companheiros o odiavam e queriam prolongar o seu sofrimento como uma reparação do mal que lhes tinha feito.

Assim, de vez em quando algum deles se erguia, e chegando-se ao frade, exprobrava-lhe a sua  perversidade e cobria-o de impropérios e de injúrias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra, porque os seus algozes o tinham ameaçado de cortar-lhe a língua.

Aires Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antônio de Mariz; todos s