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SEGUNDA PARTE PERI I O CARMELITA Corria o mês de março de 1603. Era portanto um ano antes do dia em que se abriu esta história. Havia à beira do caminho que então servia às expedições entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um vasto pouso onde habitavam alguns colonos e índios catequizados. Estava quase a anoitecer. Uma tempestade seca, terrível e medonha, como as há freqüentemente nas faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoitava as grossas árvores que vergavam os troncos seculares; o trovão ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céu; o relâmpago amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a natureza nadava num oceano de fogo. No vasto copiar do pouso havia três pessoas contemplando com um certo prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados como eles, não deixava de ter alguma beleza. Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade. O segundo, encostado num dos esteios de jacarandá que sustentava o teto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta anos; a sua fisionomia apresentava uns longes do tipo da raça judaica; tinha os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até perder‑se no mato. Defronte dele, também apoiado sobre a outra coluna, estava um frade carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o progresso da borrasca; animava‑lhe o rosto belo e de traços acentuados um raio de inteligência e uma expressão de energia que revelava o seu caráter. Ao ver esse homem sorrindo à tempestade e afrontando com o olhar a luz do relâmpago, conhecia‑se que sua alma tinha a força de resolução e a vontade indomável capaz de querer o impossível, e de lutar contra o céu e a terra para obtê‑lo. Fr. Ângelo di Luca achava‑se então no pouso como missionário, incumbido da catequese e cura das almas entre o gentio daquele lugar; em seis meses que apostolava conseguira aldear algumas famílias que esperava breve trazer ao grêmio da igreja. Um ano havia que obtivera do prior‑geral da ordem do Carmo a graça de passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, a fim de empregar‑se no trabalho das missões. Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente entusiasmo apostólico, o haviam recomendado expressamente a Fr. Diogo do Rosário, então prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, pedindo‑lhe que empregasse no serviço do Senhor e na glória da ordem da Beatíssima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão Fr. Ângelo di Luca. Eis a razão por que o filho de um pescador, saído das lagunas de Veneza, achava‑se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor. — Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava deitado na rede. — Ao quarto d’alva, respondeu o outro sem voltar‑se. — E o tempo que vais fazer? — Não é isso que me estorva, bem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita caçada!... — Receais que vossos homens não tornem dela a tempo? — Receio que não os leve a todos a breca por esses matos com semelhante borrasca. O frade voltou‑se: — Aqueles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão, em andurriais como neste pouso; os maus é que devem temer o fogo do céu, e a esses não há abrigo que os salve. Fernão Aines sorriu ironicamente. — Credes isso, Fr. Ângelo? — Creio em Deus, irmão. — Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ai metido nalgum despenhadeiro. — Contudo, acudiu Nunes, o que diz o nosso reverendo missionário... — Ora, deixa falar Fr. Ângelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade, lá seria a tempestade que zombaria de mim. — Fernão Aines!... exclamou Nunes. — Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem atendê‑lo. O silêncio se restabeleceu. De repente uma nuvem abriu‑se; a corrente elétrica enroscando‑se pelo ar, como uma serpente de fogo, abateu‑se sobre um tronco de cedro que havia defronte do pouso. A árvore fendeu‑se desde o olho até à raiz em duas metades; uma permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines e o atirou esmagado no fundo do alpendre. Seu companheiro ficou imóvel por muito tempo; depois começou a tremer como se tiritasse com o frio de terças; o polegar estendido para fazer o sinal‑da‑cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto contraído, davam‑lhe aspecto terrível e ao mesmo tempo grotesco. O frade se tinha voltado lívido como se ele fosse a vitima da catástrofe; o terror decompôs um momento a sua fisionomia; porém logo um sorriso sardônico fugiu‑lhe dos lábios ainda descorados pelo choque violento que sofrera. Passado o primeiro momento de susto, os dois chegaram‑se para o ferido e quiseram prestar‑lhe socorro; este fez um grande esforço, e erguendo‑se sobre um dos braços, soltou numa golfada de sangue estas palavras: — Castigo do céu! Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigiu o remédio espiritual: com a voz fraca pediu a Fr. Ângelo que o ouvisse de confissão. Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para o alpendre, e deitou‑o sobre uma cama de couro. Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão; apenas por instantes o relâmpago brilhava lançando o clarão azulado sobre o confessor meio reclinado para o moribundo a fim de escutar‑lhe a voz que ia gradualmente enfraquecendo. — Ouvi‑me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me restam; e embora não haja perdão para mim quero ao menos reparar o meu crime. — Falai, irmão; eu vos escuto. — Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro: fui hospedado por um parente meu: tanto ele como sua mulher me fizeram o melhor acolhimento. “Ele, que havia muito viajado pelo sertão e se dera à vida de aventureiro, falou‑me um dia de tentarmos uma expedição, cujo resultado seria grande riqueza para nós ambos. “Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objeto, até que abriu‑se inteiramente comigo. “O pai de um Robério Dias, colono da Bahia, guiado por um índio, havia descoberto nos sertões daquela província minas de prata tão abundantes que se poderiam calçar desse metal as ruas de Lisboa. “Como atravessasse sertões ínvios e inóspitos, Dias escrevera um roteiro com as indicações necessárias para em qualquer tempo poder‑se achar o lugar onde estão situadas as ditas minas. “Este roteiro fora subtraído a seu dono sem que ele o percebesse: e por uma longa sucessão de fatos, que faltam‑me as forças para contar‑vos, viera cair nas mãos do meu parente. “De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em mim o último herdeiro desse legado de sangue!...” O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz débil: “Já então com a chegada do governador D. Francisco de Sousa se sabia que Robério oferecera em Madri a Filipe 11 a descoberta das minas, e que não o tendo el‑rei premiado como esperou, obstinava‑se em guardar silêncio. “A razão desse silêncio que se atribuía geralmente ao despeito, só a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Robério chegado às Espanhas se apercebera do roubo que lhe haviam feito, e quisera aos menos lograr o prêmio. “O segredo das minas, a chave dessa riqueza imensa que excedia todos os tesouros do Miramolim, estavam nas mãos do meu parente que, necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empresa, julgou que a ninguém melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus riscos e esperanças. “Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi o meu primeiro erro!...” A voz do aventureiro tornou‑se ainda mais sumida. O frade inclinado sobre ele, parecia devorar com os lábios entreabertos as palavras balbuciadas pelo moribundo. — Coragem filho! — Sim! Devo dizer tudo!... Fascinado pela descrição desse tesouro fabuloso, tive uma lembrança iníqua... essa lembrança tornou‑se desejo... depois idéia, e... projeto... por fim realizou‑se... foi um crime! Assassinei meu parente; e sua mulher... — E... exclamou o frade com a voz surda. — E roubei o segredo! O frade sorriu nas trevas. — Agora só me resta a misericórdia de Deus, e a reparação do mal que fiz... Robério é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero que este papel lhe seja entregue... Prometeis Fr. Ângelo?... — Prometo! O papel?... — Está... oculto... — Aonde? — Nes... ta... O moribundo agonizava. Fr. Ângelo, debruçado inteiramente sobre ele, com o ouvido colado à sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o último sopro da vida, a fim de tirar dele uma palavra ainda. — Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava. O enfermo agonizava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga como a lâmpada que bruxuleia, agitavam apenas o corpo enregelado. Por fim o frade viu‑o levantar o braço hirto, apontando para a parede, e sentiu os seus lábios gelados e convulsos que tremeram, lançando no seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito. — Cruz!... Fr. Ângelo ergueu‑se circulando o aposento com a vista alucinada; na cabeceira da cama havia um Cristo de ferro sobre uma grande cruz de pau tosca e mal lavrada. Com um movimento de raiva o frade apoderou‑se da cruz, e quebrou‑a de encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços de madeira apareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que estivera. Quebrou com os dentes o selo do papel; chegando à janela leu à claridade vacilante do relâmpago as primeiras palavras de um rotulo de letras vermelhas, que rezava nestes termos: “Roteiro verídico e exato em que se trata da rota que fez Robério Dias, o pai, em o ano da graça de 1587 às paragens de Jacobina, onde descobriu com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que existam no mundo; com a suma de todas as indicações de marcos, balizas e linha equinocial onde demoram aquelas ditas minas; começado em 20 de janeiro, dia do mártir São Sebastião, e terminado na primeira dominga de Páscoa em que chegamos com a mercê da Providência nesta cidade do Salvador.” Enquanto o frade se esforçava para ler, o moribundo agonizava na última aflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema‑unção do penitente. Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas mãos; deixou‑se cair em um banco, e com a cabeça pendida sobre o braço, entregou‑se a funda meditação. Que pensava ele?... Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada lhe apresentava um mar argênteo, um oceano de metal fundido, alvo e resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de prata, ora achamalotavam‑se, ora rolavam formando frocos de espumas, que pareciam flores de diamantes, de esmeraldas e rubins cintilando à luz do sol. Às vezes também nessa face lisa e polida desenhavam‑se como em um espelho palácios encantados, mulheres belas como as huris do profeta, virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Assim decorreu meia hora, em que o silêncio era apenas interrompido pelo estertor do moribundo e pelo trovão que rugia; depois houve uma calma sinistra; o pecador expirava impenitente. Fr. Ângelo levantou‑se, arrancou o hábito com um gesto desesperado, e pisou‑o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com que trajou‑se; tirou as armas do cadáver, apanhou o chapéu de feltro, e apertando ao peito o manuscrito, dirigiu‑se à porta. Ouviam‑se os passos de Nunes, que passeava fora no alpendre. O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta deu‑lhe uma inspiração. Tomou o hábito, vestiu‑o sobre o seu novo trajo, e escondendo na manga o chapéu do aventureiro, cobriu‑se com o largo capelo; então abriu a porta e dirigiu‑se a Nunes. — Consummatum est, irmão! disse ele com um tom compungido. — Deus tenha sua alma! — Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu último voto, que é uma reparação. — De um grave pecado? — De um crime, irmão. Dai‑me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosário, nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais novas de mim. O frade escreveu à claridade de uma acha de pau‑candeia algumas linhas ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo‑se de Nunes, partiu. Quando dobrava o canto do pouso, o céu abriu‑se e a terra incendiou‑se com a luz de um relâmpago tão forte que o deslumbrou. Dois raios, descrevendo listras de fogo, tinham caído sobre a floresta e espalhado em torno um cheiro de súlfur que asfixiava. O carmelita teve uma vertigem; lembrou‑se da cena da tarde, do tremendo castigo que ele próprio havia evocado na sua hipocrisia, e se realizara tão prontamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo ainda e pálido de terror, o réprobo levantou o braço como desafiando a cólera do céu, e soltou uma blasfêmia horrível: — Podeis matar‑me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e poderoso, contra a vontade do mundo inteiro! Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de Satanás precipitado no abismo pela sentença irrevogável do Criador. Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionário conseguira aldear algumas famílias de índios; entrou e acordou um dos selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanhá‑lo apenas rompesse o dia. A chuva caia em torrentes; o vento açoitava as paredes de sapé, esfuziando por entre a palha. O frade passou a noite em claro, refletindo e traçando no seu espírito um plano infernal, para cuja realização não trepidaria diante de nenhum obstáculo; de vez em quando levantava‑se para ver se o horizonte já se iluminava. Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o tempo estava sereno. O carmelita acompanhado pelo selvagem partiu: vagou pela floresta e pelo campo em todas as direções; alguma coisa procurava. Ele avistou depois de duas horas a touça de cardos junto da qual se passou a última cena que narramos; examinou‑a por todos os lados e sorriu de satisfeito. Trepando à árvore, e escorregando pelo cipó, entraram ele e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido há pouco. No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saiu deste lagar um só homem; não era ele o frade nem o selvagem. Era um aventureiro destemido e audaz, em cuja fisionomia se reconheciam ainda os traços do carmelita Fr. Ângelo di Luca. Este aventureiro chamou‑se Loredano. Deixava naquele lugar e sepultado no seio da terra um terrível segredo; isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadáver. Cinco meses passados, o vigário da ordem participava ao geral em Roma que o irmão Fr. Ângelo di Luca morrera como santo e mártir no zelo de sua fé apostólica. II IARA! Dois dias depois da cena do pouso, por uma bela tarde de verão, a família de D. Antônio de Mariz estava reunida na margem do Paquequer. O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dois outeiros pedregosos que se elevavam naquelas paragens. A relva que tapeçava essas fráguas, as árvores que haviam nascido nas fendas das pedras, e reclinando sobre o vale, teciam um lindo dossel de verdura, tornavam aquele retiro pitoresco. Não podia haver sitio mais agradável para se passar uma sesta de estio, do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das aves concertava com o trépido murmúrio das águas. Por isso, apesar de ficar ele a alguma distancia da casa, a família vinha às vezes quando o tempo estava sereno, gozar algumas horas da frescura deliciosa que ali se respirava. D. Antônio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre uma abertura das folhas o céu azul e aveludado de nossa terra, que os filhos da Europa não se cansam de admirar. Isabel, encostada a uma palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova de Bernardim Ribeiro. Cecília corria pelo vale perseguindo um lindo colibri, que no vôo rápido iriava‑se de mil cores, cintilando como o prisma de um raio solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo‑se dos volteios que a avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ela, achava nesse folguedo um vivo prazer. Mas afinal, sentindo‑se fatigada, foi recostar‑se em um cômoro de relva, que elevando‑se no sopé do rochedo formava uma espécie de divã natural. Descansou a cabeça no declive, e assim ficou com os pezinhos estendidos sobre a grama que os escondia como a lã de um rico tapete; e o seio mimoso a arfar com o anélito da respiração. Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave painel que formava esse grupo de família De repente, entre o dossel de verdura que cobria esta cena, ouviu‑se um grito vibrante e uma palavra de língua estranha: — Iara! É um vocábulo guarani: significa a senhora. D. Antônio levantou‑se; volvendo olhos rápidos, viu sobre a eminência que ficava sobranceira ao lagar em que estava Cecília, um quadro original. De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita que formava a rocha, um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão metia o ombro a uma lasca de pedra que se desencravara do seu alvéolo e ia rolar pela encosta. O índio fazia um esforço supremo para suster o peso da laje prestes a esmagá‑lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de árvore mantinha por uma tensão violenta dos músculos o equilíbrio do corpo. A árvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavam numa mesma volta, e precipitavam sobre a menina sentada na aba da colina. Cecília ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma surpresa, sem adivinhar o perigo que a ameaçava. Ver, lançar‑se para sua filha, tomá‑la nos braços, arrancá‑la à morte, foi para D. Antônio de Mariz uma só idéia e um só movimento, que realizou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que era toda a sua vida. No momento em que o fidalgo deitava Cecília quase desmaiada sobre o regaço materno, o índio saltava no meio do vale; a pedra girando sobre si, precipitada do alto da colina, enterrava‑se profundamente no chão. Foi então que os outros espectadores desta cena, paralisados pelo choque que haviam sofrido, lançaram um grito de terror, pensando no perigo que já estava passado. Uma larga esteira que descia da eminência até o lugar onde Cecília estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, arrancando a relva e ferindo o chão. D. Antônio, ainda pálido e trêmulo do perigo que correra Cecília, volvia os olhos daquela terra que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um gênio benfazejo das florestas do Brasil. O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que ele salvara sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrara a si próprio da morte. Quanto ao sentimento que ditara esse proceder, D. Antônio não se admirava; conhecia o caráter dos nossos selvagens, tão injustamente caluniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança eram generosos, capazes de uma ação grande, e de um estimulo nobre. Por muito tempo reinou silêncio expressivo nesse grupo, que se acabava de transformar de modo tão imprevisto. D. Lauriana e Isabel de joelhos oravam a Deus, rendendo‑lhe graças; Cecília ainda assustada apoiava‑se ao peito de seu pai e beijava‑lhe a mão com ternura; o índio humilde e submisso fitava um olhar profundo de admiração sobre a moça que tinha salvado. Por fim D. Antônio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, caminhou para o selvagem e estendeu‑lhe a mão com gesto nobre e afável; o índio curvou‑se e beijou a mão do fidalgo. — De que nação és? perguntou‑lhe o cavalheiro em guarani. — Goitacá, respondeu o selvagem erguendo a cabeça com altivez. — Como te chamas? — Peri, filho de Ararê, primeiro de sua tribo. — Eu, sou um fidalgo português, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; ofereço‑te a minha amizade. — Peri aceita; tu já eras amigo. — Como assim? perguntou D. Antônio admirado. — Ouve. O índio começou, na sua linguagem tão rica e poética, com a doce pronúncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves das florestas virgens, esta simples narração: “Era o tempo das árvores de ouro. “A terra cobriu o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de guerra. “Peri chamou os guerreiros de sua nação e disse: ‘Pai morreu; aquele que for o mais forte entre todos, terá o arco de Ararê. Guerra!’ “Assim falou Peri; os guerreiros responderam: ‘Guerra!’ “Enquanto o sol alumiou a terra, caminhamos; quando a lua subiu ao céu, chegamos. Combatemos como Goitacás. Toda a noite foi uma guerra. Houve sangue, houve fogo. “Quando Peri abaixou o arco de Ararê, não havia na taba dos brancos uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza. “Veio o dia e alumiou o campo; veio o vento e levou a cinza. “Peri tinha vencido; era o primeiro de sua tribo, e o mais forte de todos os guerreiros. “Sua mãe chegou e disse: ‘Peri, chefe dos Goitacás, filho de Ararê, tu és grande, tu és forte como teu pai; tua mãe te ama’. “Os guerreiros chegaram e disseram: ‘Peri, chefe dos Goitacás, filho de Ararê, tu és o mais valente da tribo e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem’. “As mulheres chegaram e disseram: ‘Peri, primeiro de todos, tu és belo como o sol, e flexível como a cana selvagem que te deu o nome; as mulheres são tuas escravas’. “Peri ouviu e não respondeu; nem a voz de sua mãe, nem o canto dos guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir. “Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bela como a garça do rio. “Tinha a cor do céu nos olhos; a cor do sol nos cabelos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrelas e uma pluma de luz. “O fogo passou; a casa da cruz caiu. “De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu; estava triste e falou assim: ‘Peri, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrela grande acompanha o dia’. “A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornamos da guerra; todas as noites Peri via a senhora na sua nuvem; ela não tocava a terra, e Peri não podia subir ao céu. “O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flor, nem sombra; chora umas lágrimas doces como o mel dos seus frutos. “Assim Peri ficou triste. “A senhora não apareceu mais; e Peri via sempre a senhora nos seus olhos. “As árvores ficaram verdes; os passarinhos fizeram seus ninhos; o sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou‑se de seu pai. “Veio o tempo da guerra. “Partimos; andamos; chegamos ao grande rio. Os guerreiros armaram as redes; as mulheres fizeram fogo; Peri olhou o sol. “Viu passar o gavião. “Se Peri fosse o gavião, ia ver a senhora no céu. “Viu passar o vento. “Se Peri fosse o vento, carregava a senhora no ar. “Viu passar a sombra. “Se Peri fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite. “Os passarinhos dormiram três vezes. “Sua mãe veio e disse: ‘Peri, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãe; virgem branca também’. “Peri tomou suas armas e partiu; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escravo. “O sol chegava ao meio do céu e Peri chegava também ao rio; avistou longe a tua casa grande. “A virgem branca apareceu. “Era a senhora que Peri tinha visto; não estava triste como da primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrelas. “Peri disse: ‘A senhora desceu do céu, porque a lua sua mãe deixou; Peri, filho do sol, acompanhará a senhora na terra’. “Os olhos estavam na senhora; e o ouvido no coração de Peri. A pedra estalou e quis fazer mal à senhora. “A senhora tinha salvado a mãe de Peri, Peri não quis que a senhora ficasse triste, e voltasse ao céu. “Guerreiro branco, Peri, primeiro de sua tribo, filho de Ararê, da nação Goitacá, forte na guerra, te oferece o seu arco; tu és amigo.” O índio terminou aqui a sua narração. Enquanto falava, um assomo de orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força. Apenas concluiu, a altivez do guerreiro desapareceu; ficou tímido e modesto; já não era mais do que um bárbaro em face de criaturas civilizadas, cuja superioridade de educação o seu instinto reconhecia. D. Antônio o ouvia sorrindo‑se do seu estilo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras frases que balbucia a criança no seio materno. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem poética a Cecília, a qual já livre do susto queria por força, apesar do medo que lhe causava o selvagem, saber o que ele dizia. Compreenderam da história de Peri, que uma índia salva havia dois dias por D. Antônio das mãos dos aventureiros e a quem Cecília enchera de presentes de velórios azuis e escarlates, era a mãe do selvagem. — Peri, disse o fidalgo, quando dois homens se encontram e ficam amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade. — É o costume que os velhos transmitiram aos moços da tribo, e os pais aos filhos. — Tu cearás conosco. — Peri te obedece. A tarde declinava; as primeiras estrelas luziam. A família, acompanhada por Peri, dirigiu‑se a casa, e subiu a esplanada. D. Antônio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina tauxiada com o brasão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas mãos do índio. — É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra; nunca mentiu fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a seta do teu arco. Peri, tu me deste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu pai. O índio recebeu o presente com uma efusão de profundo reconhecimento. — Esta arma que vem da senhora, e Peri, farão um só corpo. A campa do terreiro tocou anunciando a ceia. O índio vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, não sabia como se ater. Apesar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizível em mostrar‑lhe quanto apreciava a sua ação e remoçara com a alegria de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar. Por fim D. Antônio de Mariz conhecendo que toda a insistência era inútil, encheu duas taças de vinho das Canárias. — Peri, disse o fidalgo, há um costume entre os brancos, de um homem beber por aquele que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê. — E Peri bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque salvaste sua mãe; bebe por ti, porque és guerreiro. A cada palavra o índio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem fazer o menor gesto de desgosto; ele beberia veneno à saúde do pai de Cecília. III GÊNIO DO MAL Peri voltou por diferentes vezes à casa de D. Antônio de Mariz. O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu caráter nobre simpatizava com aquela natureza inculta. Cecília porém, apesar do reconhecimento que lhe inspirava a sua dedicação por ela, não podia vencer o receio que sentia vendo um desses selvagens de quem sua mãe lhe fazia tão feia descrição, e de cujo nome se servia para meter‑lhe medo quando criança. Em Isabel o índio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a presença de um homem daquela cor; lembrara‑se de sua mãe infeliz, da raça de que provinha, e da causa do desdém com que era geralmente tratada. Quanto a D. Lauriana, via em Peri um cão fiel que tinha um momento prestado um serviço à família e a quem se pagava com um naco de pão. Devemos porém dizer que não era por mau coração que ela pensava assim, mas por prejuízos de educação. Quinze dias depois que Cecília fora salva por Peri, uma manhã Aires Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antônio que estava no seu gabinete. — Sr. D. Antônio, esse estrangeiro a quem destes hospedagem há duas semanas, pede‑vos audiência. — Manda‑o vir. Aires Gomes introduziu o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano que em se havia transformado o carmelita Fr. Ângelo di Luca. — Que desejais, amigo, faltaram‑vos em alguma coisa? — Ao contrário, sr. cavalheiro; acho‑me tão bem, que o meu desejo seria ficar. — E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o nome do que chega, também não lhe inquire o tempo de partida. — A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, sr. cavalheiro; mas não é dela que desejo falar. — Explicai‑vos então. — Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e filhos que lhe chegaram do Reino. — Sim; já ontem me falou disso. — Falta‑vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso inconveniente. — Nenhum absolutamente. — Nesse caso posso considerar‑me como admitido? — Atendei; Aires Gomes vai dizer‑vos as condições a que vos sujeitais; se estiverdes por elas, é negócio decidido. — Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo. — Ide sempre. O fidalgo chamou o seu escudeiro e incumbiu‑o de pôr o italiano ao fato das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu serviço. Era este um dos privilégios de Aires Gomes, que o desempenhava com toda a gravidade de que era suscetível a sua personagem um pouco grotesca. Chegados à esplanada, o escudeiro perfilou‑se e proferiu o seguinte intróito: — Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que se sujeita todo aquele que entrar à soldada na banda do Sr. cavalheiro D. Antônio de Mariz, fidalgo cota d’armas, do tronco dos Marizes em linha reta. Aqui o escudeiro molhou a palavra e prosseguiu: — Primo: Obedecer sem replicar. Quem o contrário fizer, pereça morte natural. O italiano fez um gesto de aprovação. — Isto quer dizer, misser italiano, que se um dia o Sr. D. Antônio vos mandar saltar deste rochedo embaixo, fazei a vossa oração e saltai; porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Aires Gomes, lá ireis. Loredano sorriu. — Secundo: Contentar‑se com o que há. Quem o contrário... — Com o vosso respeito, Sr. Aires Gomes, não vos deis a um trabalho inútil; sei tudo o que ides rezar‑me, e por isso dispenso‑vos de continuar. — Que quereis dizer? — Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me descreveram a cerimônia que ora pondes em prática. — Não obstante... — Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quiserdes. E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigiu‑se para o gabinete de D. Antônio enquanto o escudeiro, zangado por não ter levado ao fim a cena de iniciação a que dava tão grande valor, resmungava: — Não pode ser boa casta de gente! Loredano apresentou‑se a D. Antônio. — Então? disse o fidalgo. — Aceito. — Bem; agora só falta uma coisa, que Aires Gomes não vos disse naturalmente. — Qual, sr. cavalheiro? — É que D. Antônio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o ombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de toda a família a que atualmente pertenceis. O italiano curvou‑se para agradecer, mas sobretudo para esconder a alteração da fisionomia. Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentiu‑se perturbado: porque já então lhe fermentava no cérebro o plano da trama que ia urdir, e que vimos revelar‑se um ano depois. Saindo do lugar em que deixara oculto o seu tesouro, o aventureiro caminhou direito à casa de D. Antônio de Mariz e pediu a hospitalidade que a ninguém se recusava: sua intenção era passar‑se ao Rio de Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna. Duas idéias se tinham apresentado ao seu espírito no momento em que se vira possuidor do roteiro de Robério Dias. Iria à Europa vender o segredo a Filipe 11 ou a qualquer outro soberano de uma nação poderosa e inimiga da Espanha? Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu serviço esse tesouro fabuloso que devia elevá‑lo ao fastígio da grandeza? Esta última idéia lhe sorria mais; entretanto não tomou nenhuma resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, aliviado desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu, como dissemos, ir pedir hospitalidade a D. Antônio de Mariz. Aí formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com ele marcharia à riqueza, à fortuna, ao poder. Chegado à casa do fidalgo, o ex‑carmelita com o seu espírito de observação estudou o terreno e achou‑o favorável à realização de uma idéia que começou logo a germinar no seu espírito até que tomou as proporções de um projeto. Homens mercenários que vendem a sua liberdade, consciência e vida por um salário, não têm dedicação verdadeira senão a um objeto, o dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. Fr. Ângelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no regimento da banda, avaliou do caráter dos aventureiros. — Esses homens me serviriam perfeitamente, disse ele consigo. No meio dessas reflexões um fato veio produzir completa revolução nas suas idéias. Viu Cecília. A imagem dessa bela menina, casta e inocente, produziu naquela organização ardente e por muito tempo comprimida o mesmo efeito da faisca sobre a pólvora. Toda a continência de sua vida monástica, todos os desejos violentos que o hábito tinha selado como uma crosta de gelo, todo esse sangue vigoroso e forte da mocidade, passada em vigílias e abstinências, refluíram ao coração e o sufocaram um momento. Depois um êxtase de voluptuosidade imensa embebeu essa alma velha pela corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração revelava‑se com toda a veemência da vontade audaz, que era o móvel de sua vida. Sentiu que essa mulher era tão necessária à sua existência, como o tesouro que sonhava; ser rico para ela, possuí‑la para gozar a riqueza, foi desde então o seu único pensamento, a sua idéia dominante. Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lagar e obteve‑o como acabamos de ver; o seu plano estava traçado. Qual era, já o sabemos pelas cenas passadas; o italiano contava tornar‑se senhor da banda, apoderar‑se de Cecília, ir às minas encantadas, carregar tanta prata quanta pudesse levar, dirigir‑se à Bahia, assaltar uma nau espanhola, tomá‑la de abordagem, e fazer‑se de vela para a Europa. Aí armava navios de corso, voltava ao Brasil, explorava o seu tesouro, tirava dele riquezas imensas e... E o mundo abria‑se diante de seus olhos, cheio de esperança, de futuro e felicidade. Durante um ano trabalhou nessa empresa com uma sagacidade e inteligência superior; ganhara os dois homens influentes da banda, Rui Soeiro e Bento Simões; por meio deles preparava o desenlace final. Ignorado pelos outros ele dirigia essa conspiração que lavrava surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podiam perder. Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de uma traição, e que entregasse aos seus dois cúmplices uma arma com que pudessem feri‑lo; daí a lembrança desse testamento que entregara a D. Antônio de Mariz. Somente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o italiano dissera a Rui Soeiro ele havia apenas indicado a traição dos dois aventureiros, declarando‑se seduzido por eles; o frade mentia pois até na hora extrema em que o papel devia falar. A confiança que tinha, e com razão, no caráter de D. Antônio, tranqüilizava‑o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo abriria um testamento que lhe fora dado em depósito. Eis como Fr. Ângelo di Luca achava‑se sob o seu novo nome de Loredano, pertencendo à casa de D. Antônio de Mariz e preparando‑se para realizar afinal o seu pensamento de todos os instantes. Um ano havia que esperava, e como ele dizia, estava cansado: resolvera dar enfim o golpe; e para isso, depois de haver esmagado os dois cúmplices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a autômatos obedecendo ao seu gesto, entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo animar esses manequins com algum sentimento, que lhes desse o atrevimento, a audácia e a força necessária para se lançarem na voragem e não trepidarem diante de nenhum obstáculo. Este sentimento foi a ambição. À vista do roteiro era impossível que não sentissem a febre da riqueza, a auri sacra fames que se havia apoderado dele próprio, no momento em que vira abrir‑se diante de seus olhos um mar de prata fundida em que os seus lábios podiam matar a sede ardente que o devorava. O efeito não desmentiu a sua previsão; lendo o rótulo, cada um dos aventureiros ficara eletrizado; para tocar aquele abismo insondável de riquezas, nem um deles hesitaria em passar sobre o corpo de seu amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruína de uma família. Infelizmente aquela voz inesperada, saída do seio da terra, viera modificar a situação. Mas não antecipemos; por ora ainda estamos em 1603, um ano antes daquela cena, e ainda nos falta contar certas circunstâncias que serviram para o seguimento desta verídica história. IV CECI Poucas horas depois que Loredano fora admitido na casa de D. Antônio de Mariz, Cecília chegando à janela do seu quarto viu do lado oposto do rochedo Peri, que a olhava com uma admiração ardente. O pobre índio tímido e esquivo, não se animava a chegar‑se à casa, senão quando via de longe a D. Antônio de Mariz passeando sobre a esplanada; adivinhava que naquela habitação só o coração nobre do velho fidalgo sentia por ele alguma estima. Havia quatro dias que o selvagem não aparecia; D. Antônio supunha já que ele tivesse voltado com sua tribo para os lugares onde vivia, e que só deixara para fazer a guerra aos índios e portugueses. A nação Goitacá dominava todo o território entre o Cabo de São Tomé e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas. Tinha arrasado completamente a colônia da Paraíba fundada por Pero de Góis; e depois de um assédio de seis meses conseguira destruir igualmente a colônia de Vitória, fundada no espírito Santo por Vasco Fernandes Coutinho. Voltemos dessa pequena digressão histórica ao nosso herói. O primeiro movimento de Cecília, vendo o índio fora de susto; fugira insensivelmente da janela. Mas o seu bom coração irritou‑se contra esse receio, e disse‑lhe que ela não tinha que temer do homem que lhe salvara a vida. Lembrou‑se que era ser má e ingrata pagar a dedicação que o índio lhe mostrava deixando‑lhe ver a repugnância que lhe inspirava. Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrifício ao reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou à janela; fez com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Peri que se aproximasse. O índio não se contendo de alegria, correu para a casa, enquanto Cecília ia ter com seu pai, e dizia‑lhe: — Vinde ver Peri, que chega, meu pai. — Ah! inda bem, respondeu o fidalgo. E acompanhando sua filha, D. Antônio foi ao encontro do índio que já subia a esplanada. Peri trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinária delicadeza, feito de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavam os fios, ouviam‑se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que faziam os pequenos habitantes desse ninho gracioso. O índio ajoelhou aos pés de Cecília; sem animar‑se a levantar os olhos para ela, apresentou‑lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina assustou‑se, mas sorriu; um enxame de beija‑flores esvoaçava dentro; alguns conseguiram escapar‑se. Destes um veio aninhar‑se no seu seio, o outro começou a voltejar em torno de sua cabeça loura como se tomasse a sua boquinha rosada por um fruto. A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras azuis e verdes; mas todas de reflexos dourados, e formas mimosas e delicadas! Vendo‑se esses íris animados acredita‑se que a natureza os criou com um sorriso, para viverem de pólen e de mel, e para brilharem no ar como as flores na terra e as estrelas no céu. Quando Cecília se cansou de admirá‑los, tomou‑os um por um, beijou‑os, aqueceu‑os no seio, e sentiu não ser uma flor bela e perfumada para que eles a beijassem também, e esvoaçassem constantemente em torno dela. Peri olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvara, tinha sabido fazer uma coisa, que trouxera um sorriso de prazer aos lábios da senhora. Entretanto, apesar dessa felicidade que sentia interiormente, era fácil de ver que o índio estava triste; ele chegou‑se para D. Antônio de Mariz e disse‑lhe: — Peri vai partir. — Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos? — Sim: Peri volta à terra que cobre os ossos de Ararê. D. Antônio encheu o índio de presentes dados em seu nome e em nome de sua filha. — Perguntai a ele por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse Cecília. O fidaldo traduziu a pergunta. — Porque a senhora não precisa de Peri; e Peri deve acompanhar sua mãe e seus irmãos. — E se a pedra quiser fazer mal à senhora, quem a defenderá? perguntou a menina sorrindo e fazendo alusão à narração do índio. Ouvindo dos lábios de D. Antônio a pergunta, o selvagem não soube o que responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por seu espírito; temia que na sua ausência a menina corresse um perigo e ele não estivesse junto dela para salvá‑la. — Se a senhora manda, disse enfim, Peri fica. Cecília, apenas seu pai lhe traduziu a resposta do índio, riu‑se daquela cega obediência; mas era mulher; um átomo de vaidade dormia no fundo do seu coração de moça. Ver aquela alma selvagem, livre como as aves que planavam no ar ou como os rios que corriam na várzea; aquela natureza forte e vigorosa que fazia prodígios de força e coragem; aquela vontade indomável como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar‑se a seus pés submissa, vencida, escrava!... Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organização e brincar com a força obrigando‑a a curvar‑se diante do seu olhar. As mulheres têm isso de particular; reconhecendo‑se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo imã dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a elas: não amam a inteligência, a coragem, o gênio, o poder, senão para vencê‑los e subjugá‑los. Entretanto a mulher deixa‑se bastantes vezes dominar; mas e sempre pelo homem que, não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força. Cecília era uma menina ingênua e inocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta beleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quase nada de vaidade. — A senhora não quer que Peri parta, disse ela com um arzinho de rainha, e fazendo um gesto com a cabeça. O índio compreendeu perfeitamente o gesto. — Peri fica. — Vede, Cecília, replicou D. Antônio rindo: ele te obedece! Cecília sorriu. — Minha filha te agradece o sacrifício, Peri, continuou o fidalgo; mas nem ela nem eu queremos que abandones a tua tribo. — A senhora mandou, respondeu o índio. — Ela queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está satisfeita; consente que partas. — Não! — Mas os teus irmãos, tua mãe, tua vida livre? — Peri é escravo da senhora. — Mas Peri é um guerreiro e um chefe. — A nação Goitacá tem cem guerreiros fortes como Peri; mil arcos ligeiros como o vôo do gavião. — Assim, decididamente queres ficar? — Sim; e como tu não queres dar a Peri a tua hospitalidade, uma árvore da floresta lhe servirá de abrigo. — Tu me ofendes, Peri! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo e salvaste minha filha. — Não, Peri não te ofende; mas sabe que tem a pele cor de terra. — E o coração de ouro. Enquanto D. Antônio continuava a insistir com o índio para que partisse, ouviu‑se um canto monótono que saia da floresta. Peri aplicou o ouvido; descendo à esplanada correu na direção donde partia a voz, que cantava com a cadência triste e melancólica particular aos índios, a seguinte endecha na língua dos Guaranis: “A estrela brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas asas. “A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos. “Na guerra os guerreiros combatem; há sangue. Na paz as mulheres trabalham; há vinho. “A estrela brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.” A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma índia já idosa; encostada a uma árvore da floresta ela vira por entre a folhagem a cena que passava na esplanada. Chegando‑se a ela, Peri ficou triste e vexado. — Mãe!... exclamou ele. — Vem! disse a índia seguindo pela mata. — Não! — Nós partimos. — Peri fica. A índia fitou em seu filho um olhar de profunda admiração. — Teus irmãos partem! O selvagem não respondeu. — Tua mãe parte! O mesmo silêncio. — Teu campo te espera! — Peri fica, mãe! disse ele com a voz comovida. — Por quê? — A senhora mandou. A pobre mãe recebeu esta palavra como uma sentença irrevogável; sabia do império que exercia sobre a alma de Peri a imagem de Nossa Senhora, que ele tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecília. Sentiu que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lágrima deslizou pela sua face cor de cobre. — Mãe, toma o arco de Peri; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê. — Não; se algum dia Peri voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãe para amá‑lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flores leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu. Peri abanou a cabeça com tristeza: — Peri não voltará! Sua mãe fez um gesto de espanto e desespero. — O fruto que cai da árvore, não torna mais a ela; a folha que se despega do ramo, murcha, seca e morre; o vento a leva. Peri é a folha; tu és a árvore, mãe. Peri não voltará ao teu seio. — A virgem branca salvou tua mãe; devia deixá‑la morrer, para não lhe roubar seu filho. Uma mãe sem seu filho é uma terra sem água; queima e mata tudo que se chega a ela. Estas palavras foram acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos. — Mãe, não ofende a senhora; Peri morreria, e na última hora não se lembraria de ti. Os dois ficaram algum tempo em silêncio. — Tua mãe fica! disse a índia com um acento de resolução. — E quem será a mãe da tribo? Quem guardará a cabana de Peri? Quem contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? Quem dirá quantas vezes a nação Goitacá levou o fogo à taba dos brancos e venceu os homens do raio? Quem há de preparar os vinhos e as bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos? Peri preferiu estas palavras com a exaltação, que despertavam nele as reminiscências de sua vida selvagem; a índia ficou pensativa e respondeu: — Tua mãe volta; vai te esperar na porta da cabana, à sombra do jambeiro; se a flor do jambo vier sem Peri, tua mãe não verá os frutos da árvore. A índia pousou as mãos sobre os ombros de seu filho, e encostou a fronte na fronte dele; durante um momento as lágrimas que saltavam dos olhos de ambos, se confundiram. Depois ela afastou‑se lentamente; Peri seguiu‑a com os olhos ate que desapareceu na floresta; esteve a correr, chamá‑la e partir com ela. Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecília que falava com seu pai; ficou. Nessa mesma noite construirá aquela pequena cabana que se via na ponta do rochedo, e que ia ser o seu mundo. Passaram três meses. Cecília que um momento conseguira vencer a repugnância que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenara que ficasse, não se lembrou da ingratidão que cometia e não disfarçou mais a sua antipatia. Quando o índio chegava‑se a ela, soltava um grito de susto; ou fugia, ou ordenava‑lhe que se retirasse; Peri que já falava e entendia o português, afastava‑se triste e humilde. Entretanto a sua dedicação não se desmentia; ele acompanhava a D. Antônio de Mariz nas suas excursões, ajudava‑o com a sua experiência, guiava‑o aos lugares onde havia terrenos auríferos ou pedras preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para procurar um perfume, uma flor, um pássaro, que entregava ao fidalgo e pedia‑lhe desse a Ceci, pois já não se animava a chegar‑se para ela, com receio de desgostá‑la. Ceci era o nome que o índio dava à sua senhora, depois que lhe tinham ensinado que ela se chamava Cecília. Um dia a menina ouvindo chamar‑se assim por ele e achando um pretexto para zangar‑se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, repreendeu‑o com aspereza: — Por que me chamas tu Ceci? O índio sorriu tristemente. — Não sabes dizer Cecília? Peri pronunciou claramente o nome da moça com todas as sílabas; isto era tanto mais admirável quanto a sua língua não conhecia quatro letras, das quais uma era o L. — Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu nome, por que não o dizes sempre? — Porque Ceci é o nome que Peri tem dentro da alma. — Ah! é um nome de tua língua? — Sim. — O que quer dizer? — O que Peri sente. — Mas em português? — Senhora não deve saber. A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de impaciência. D. Antônio passava; Cecília correu ao seu encontro: — Meu pai, dizei‑me o que significa Ceci nessa língua selvagem que falais. — Ceci?... disse o fidalgo procurando lembrar‑se. Sim! É um verbo que significa doer, magoar. A menina sentiu um remorso; reconheceu a sua ingratidão; e lembrando‑se do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou‑se má, egoísta e cruel. — Que doce palavra! disse ela a seu pai; parece um canto de pássaro. Desde este dia foi boa para Peri; pouco a pouco perdeu o susto; começou a compreender essa alma inculta; viu nele um escravo, depois um amigo fiel e dedicado. — Chama‑me Ceci, dizia às vezes ao índio sorrindo‑se; este doce nome me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa. V VILANIA E tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns fatos anteriores. Voltemos pois ao lagar em que se achavam Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soara no meio deles. |