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TERCEIRA PARTE OS AIMORÉS I PARTIDA Na segunda‑feira, eram seis horas da manhã, quando D. Antônio de Mariz chamou seu filho. O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou refletindo sobre os perigos que ameaçavam sua família. Peri lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os Aimorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e o espírito vingativo dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado. Por isso, de acordo com Álvaro, D. Diogo e seu escudeiro Aires Gomes, tinha tomado todas as medidas de precaução que as circunstâncias e sua longa experiência lhe aconselhavam. Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de selar duas cartas que escrevera na véspera. — Meu filho, disse ele com uma ligeira emoção, refleti esta noite sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deveis partir hoje mesmo para São Sebastião. — Não é possível, senhor!... Afastais‑me de vós justamente quando correis um perigo? — Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e meu herdeiro legitimo, o protetor de minha família órfã. — Confio em Deus, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se ele nos quiser submeter a tal provança, o único lagar que compete a vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso lado, para defender‑vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ela seja. D. Antônio apertou seu filho ao peito. — Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gira em tuas veias, e o meu coração de moço que fala pelos teus lábios. Deixa porém que os cinqüenta anos de experiência que desde então passaram sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da mocidade à velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma família. — Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai‑me a dor e a vergonha de deixar‑vos no momento em que mais precisais de um servidor fiel e dedicado. O fidalgo prosseguiu já calmo: — Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a vitória, fosse ela valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de menos não importa ao resultado. — Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu posto de honra e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, porém morrerei junto dos meus. — E é por esse nobre mas estéril orgulho que quereis sacrificar o único meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas previsões se realizarem? — Que dizeis, senhor? — Qualquer que seja a força e o número dos inimigos, conto que o valor português e a posição desta casa me ajudarão a resistir‑lhe por algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mês; mas por fim teremos de sucumbir. — Então?... exclamou D. Diogo pálido. — Então se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio que fidalgos portugueses não lhe recusarão decerto, poderá voar em socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua família. Então verá que esta glória de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de um perigo inútil. D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do fidalgo: — Perdão, meu pai, por não vos ter compreendido. Eu devia adivinhar que D. Antônio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é digno do pai. — Vamos, D. Diogo, não há tempo a perder. Lembrai‑vos que uma hora, um minuto de tardança talvez tenha de ser contado ansiosamente por aqueles que vão esperar‑vos. — Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo‑se à porta. — Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania; esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa família. Ide despedir‑vos de vossa mãe, e vossas irmãs; eu farei tudo preparar para a partida. O fidalgo, reprimindo a sua emoção, saiu do gabinete onde se passava esta cena, e foi ter com Álvaro que o procurava. — Álvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de Janeiro. — D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado. — Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai‑vos pressa em que tudo esteja pronto dentro de uma hora. Álvaro dirigiu‑se imediatamente ao fundo da casa onde habitavam os aventureiros. Havia ai grande agitação; uns falavam em tom de queixa, outros murmuravam apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente riam e motejavam do descontentamento de seus companheiros. Aires Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia dois tons; mas à medida que ele se afastava, cada um dava livre desabafo ao seu mau humor. Entre os mais inquietos e turbulentos distinguiam‑se três grupos presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Rui Soeiro e Bento Simões. A causa desse descontentamento quase geral era a seguinte: Por volta de seis horas da manhã, Rui, em virtude do emprazamento da véspera, dirigiu‑se o primeiro à escada para ganhar o mato. Chegando ao fim da esplanada admirou‑se de ver aí Vasco Afonso e Martim Vaz de vigia, o que era extraordinário, pois só à noite se usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia. Ainda mais admirado porém ficou quando os dois aventureiros cruzando as espadas, proferiram quase ao mesmo tempo estas palavras: — Não se passa. — E por que razão? — É a ordem, respondeu Martim Vaz. Rui empalideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéia que lhe acudiu foi que os tinham denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano. Aires Gomes porém embargou‑lhe o passo, e dirigiu‑se com ele para o terreiro: ai o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão à boca em forma de buzina, gritou. — Olá! À frente toda a banda! Os aventureiros chegaram‑se formando um círculo ao redor de Aires Gomes; Rui já tinha tido ocasião de lançar uma palavra ao ouvido do italiano; e ambos, um pouco pálidos mas resolutos, esperavam o desfecho daquela cena. — O Sr. D. Antônio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermédio vos faz saber a sua vontade: e manda que ninguém se afaste um passo da casa sem sua ordem. Quem o contrário fizer, pereça morte natural. Um silêncio morno acolheu a enunciação desta ordem. Loredano trocou uma vista rápida com os seus dois cúmplices. — Estais entendidos? disse Aires Gomes. — O que nem eu, nem meus companheiros entendemos e a razão disto, retrucou o italiano avançando um passo. — Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros. — As ordens cumprem‑se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com uma certa solenidade. — Contudo nós... ia dizendo Loredano. — Toca a debandar! gritou Aires Gomes. Aquele que não estiver contente, que o diga ao Sr. D. Antônio de Mariz. E o escudeiro com uma fleuma imperturbável rompeu o circulo e começou a passear pelo terreiro olhando de traves os aventureiros e rindo à sorrelfa do seu desapontamento. Quase todos estavam contrariados; sem falar dos conspiradores que se haviam emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros, cujo divertimento era caçar e bater os matos, não recebiam a ordem com prazer. Apenas alguns de gênio mais bonachão e jovial tinham tomado a coisa à boa parte, e zombavam da contrariedade que sofriam seus companheiros. Quando Álvaro se aproximou todos os olhos se voltaram para ele, esperando a explicação do que se passava. — Sr. cavalheiro, disse Aires Gomes, acabo de transmitir a ordem para que ninguém arrede pé da casa. — Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo‑se aos aventureiros: assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos selvagens, e toda a prudência é pouca nestas ocasiões. Não é só a nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós; é sim a pessoa daquele que confia em nosso zelo e coragem, e mais ainda o sossego de uma família honrada que todos prezamos. As nobres palavras do cavalheiro, e a afabilidade do gesto que suavizava a firmeza de sua voz, serenaram completamente os ânimos; todos os descontentes mostraram‑se satisfeitos. Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a combinação do seu plano; pois era arriscado tentá‑lo em casa, onde o menor gesto o podia trair. Álvaro trocou poucas palavras com Aires Gomes, e voltou‑se para os aventureiros: — D. Antônio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para acompanharem seu filho D. Diogo à cidade de São Sebastião. É uma missão perigosa; quatro homens nestes desertos marcham de perigo em perigo. Quem de vós se oferece para desempenhá‑la? Vinte homens se adiantaram; o cavalheiro escolheu três entre eles. — Vós sereis o quarto, Loredano. O italiano que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou como fulminado por estas palavras; sair naquela ocasião da casa era perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausência tudo podia se descobrir. — Pesa‑me ser obrigado a negar‑me ao serviço que exigis de mim; mas sinto‑me doente, e sem forças para uma viagem. O cavalheiro sorriu. — Não há enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever; sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano. Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros: — Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a vossa vida em minha mão e vos faço esmola mandando‑vos sair desta casa? O italiano compreendeu que não tinha remédio senão partir; bastava que o moço o acusasse de ter atirado sobre ele, bastava a palavra de Álvaro para fazê‑lo condenar pelo chefe e pelos seus próprios companheiros. — Aviai‑vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por ele; partis em meia hora. Álvaro retirou‑se. Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre ele; mas a pouco e pouco foi recobrando a calma, animando‑se; por fim sorriu. Para que sorrisse era necessário que alguma inspiração infernal tivesse subido do centro da terra a essa inteligência votada ao crime. Fez um aceno a Rui Soeiro, e os dois encaminharam‑se para um cubículo que o italiano ocupava no fim da esplanada. Aí conversaram algum tempo, rapidamente e em voz baixa. Foram interrompidos por Aires Gomes, que bateu com a espada na porta: — Eh! lá! Loredano. A cavalo, homem; e boa viagem. O italiano abriu a porta, e ia sair; mas voltou‑se para dizer a Rui Soeiro: — Olhai os homens da guarda; é o principal. — Ide tranqüilo. Alguns minutos depois, D. Diogo com o coração cerrado e as lágrimas nos olhos, apertava nos braços sua mãe querida, Cecília que ele adorava, e Isabel que já amava também como irmã. Depois desprendendo‑se com um esforço, encaminhou‑se apressadamente para a escada e desceu ao vale; ai recebeu a bênção de seu pai e abraçando a Álvaro saltou na sela do cavalo, que Aires Gomes tinha pela rédea. A pequena cavalgata partiu; com pouco sumia‑se na volta do caminho. II PREPARATIVOS Ao tempo que D. Antônio de Mariz e seu filho conversaram no gabinete, Peri examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe havia dado na véspera, e saia da cabana. A fisionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento, que revelava resolução violenta, talvez desesperada. O que ia fazer, nem ele mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus companheiros se reuniriam naquela manhã, contava, antes que a reunião se efetuasse, ter mudado inteiramente a face das coisas. Só tinha uma vida, como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua força e coragem valia por muitas; tranqüilo sobre o futuro pela promessa de Álvaro, não lhe importava o número dos inimigos: podia morrer, mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro. Saindo de sua cabana, Peri entrou no jardim: Cecília estava sentada num tapete de peles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha predileta, oferecendo os lábios de carmim às carícias que a ave lhe fazia com o bico delicado. A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade natural de seu semblante. — Tu estás agastada com Peri, senhora? — Não, respondeu a menina fitando nele os grandes olhos azuis. Não quiseste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste. Ela dizia a verdade com a ingênua franqueza da inocência. Na véspera, quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Peri, ficara contrariada. Educada no fervor religioso de sua mãe, embora sem os prejuízos que a razão de D. Antônio corrigira no espírito de sua filha, Cecília tinha a fé cristã em toda a pureza e santidade. Por isso se afligia com a idéia de que Peri, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ela dirigia suas preces. Conhecia que a razão, por que sua mãe e os outros desprezavam o índio, era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torná‑lo digno da estima de todos. Eis a razão por que ficara triste; era a gratidão por Peri, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ela queria retribuir salvando a sua alma. Nesta disposição de espírito, seus olhos caíram sobre a guitarra espanhola que estava em cima da cômoda e veio‑lhe vontade de cantar. É coisa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a música e a poesia suavizem a dor, toda a criatura triste acha no canto um supremo consolo. A menina tirou ligeiros prelúdios do instrumento enquanto repassava na memória as letras de alguns solaus e cantigas que sua mãe lhe havia ensinado. A que lhe acudiu mais naturalmente foi a xácara que ouvimos: havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ela não sabia explicar, mas ia com seus pensamentos. Quando acabou de cantar levantou‑se, apanhou a flor de Peri que tinha atirado ao chão, deitou‑a nos cabelos, e fazendo a sua oração da noite, adormeceu tranqüilamente. O último pensamento que rogou a sua fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvara a vida naquela manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como se a alma durante o sono dos olhos viesse brincar nos lábios entreabertos. O índio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecília, sentiu que pela primeira vez tinha causado uma mágoa real a sua senhora. — Tu não entendeste Peri, senhora; Peri te pediu que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir‑te. — Como?... Não te entendo! — Peri, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Peri, cristão, será o último dos teus; será um escravo, e não poderá defender‑te. — Um escravo!... Não! Serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade. O índio sorriu: — Se Peri fosse cristão, e um homem quisesse te ofender, ele não poderia matá‑lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Peri selvagem não respeita ninguém; quem ofende sua senhora é seu inimigo, e, morre! Cecília, pálida de emoção, olhou o índio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocínio; ela ignorava a conversa que o índio tivera na véspera com o cavalheiro. — Peri te desobedeceu por ti somente; quando já não correres perigo, ele virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe deste. Não fica zangada! — Meu Deus!... murmurou Cecília pondo os olhos no céu. É possível que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!... A alegria serena e doce de sua alma irradiava na fisionomia encantadora: — Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra‑te somente que no dia em que tu fores cristão, tua senhora te estimará ainda mais. — Não ficas triste? — Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente! — Peri quer pedir‑te uma coisa. — Dize, o que é? — Peri quer que tu risques um papel para ele. — Riscar um papel?... — Como este que teu pai deu hoje a Peri. — Ah! queres que eu escreva? — Sim. — O quê? — Peri vai dizer. — Espera. Ligeira e graciosa, a menina correu à banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena fez sinal a Peri que se aproximasse. Não devia ela satisfazer os desejos do índio, como este satisfazia às suas menores fantasias? — Vamos: fala que eu escrevo. — Peri a Álvaro, disse o índio. — É uma carta ao Sr. Álvaro? perguntou a menina corando. — Sim; é para ele. — Que vais tu dizer‑lhe? — Escreve. A menina traçou a primeira linha, e depois por pedido de Peri, o nome de Loredano e dos seus dois cúmplices. — Agora, disse o índio, fecha. Cecília selou a carta. — Entrega à tarde; antes não. — Mas que quer isto dizer? perguntou Cecília sem compreender. — Ele te dirá. — Não, que eu... A menina balbuciou, corando, estas palavras; ia dizer que não falaria ao cavalheiro e arrependeu‑se; não queria revelar a Peri o que se tinha passado. Sabia que se o índio suspeitasse a cena da véspera, odiaria Isabel e Álvaro, só por lhe terem causado um pesar involuntário. Enquanto Cecília confusa procurava disfarçar o enleio, Peri fitava nela o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquele olhar era o adeus extremo que o índio lhe dizia. Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que ele havia concebido de exterminar naquele dia todos os inimigos da casa. D. Diogo entrou nesse momento no quarto de sua irmã: vinha despedir‑se dela. Quanto a Peri, deixando Cecília, dirigiu‑se à escada e achou os mesmos vigias, que depois embargaram a passagem de Rui Soeiro. — Não se passa, disseram os aventureiros cruzando as espadas. O índio levantou os ombros desdenhosamente; e antes que as sentinelas voltassem a si da surpresa, tinha mergulhado sob as espadas e descido a escada. Então ganhou a mata, examinou de novo as suas armas e esperou; já estava cansado quando viu passar a pequena cavalgata. Peri não compreendeu o que sucedia; mas conheceu que o seu plano tinha abortado. Foi ter com Álvaro. O cavalheiro explicou‑lhe como se aproveitara da ida de D. Diogo ao Rio de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escândalo. Então o índio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de cardos; o projeto que formara de matar os três aventureiros naquela manhã; e finalmente a carta que lhe escrevera por intermédio de Cecília, para, no caso de sucumbir ele, saber o cavalheiro quem eram os inimigos. Álvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfídia do italiano. — Agora, concluiu Peri, é preciso que os dois também saiam; se ficarem, o outro pode voltar. — Não se animará! disse o cavalheiro. — Peri não se engana! Manda sair os dois. — Fica descansado. Falarei com D. Antônio de Mariz. O resto do dia passou tranqüilamente; mas a tristeza tinha entrado nessa casa ainda na véspera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preocupavam os moradores do Paquequer. Os aventureiros dirigidos por D. Antônio, executavam trabalhos de defesa tornando ainda mais inacessível o rochedo em que estava situada a casa. Uns construíam paliçadas em roda da esplanada: outros arrastavam para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandara vir de São Sebastião havia dois anos. Toda a casa enfim apresentava um aspecto marcial, que indicava as vésperas de um combate; D. Antônio preparava‑se para receber dignamente o inimigo. Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que passava: era Isabel, que só pensava no seu amor. Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por uma força irresistível, por um impulso que ela não sabia explicar, a pobre menina quando se vira só, no seu quarto, à noite, quase morreu de vergonha. Lembrava‑se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquilo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavam a exprimir silenciosamente. Parecia‑lhe que era impossível tornar a ver Álvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse as suas faces e a obrigasse a esconder o rosto de pejo. Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrário agora é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas e contrariedades. As poucas palavras doces que o moço lhe dirigia, a pressão das mãos, e o aperto rápido sobre o coração de Álvaro num momento de alucinação, passavam e repassavam na sua memória a todo o momento. Seu espírito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava constantemente em torno das reminiscências ainda vivas, como para libar todo o mel que encerravam aquelas sensações, as primeiras de seu infeliz amor. Nesse mesmo dia de segunda‑feira, à tarde, Álvaro encontrou‑se um momento com Isabel na esplanada. Ambos ficaram mudos, e coraram. Álvaro ia retirar‑se. — Sr. Álvaro... balbuciou a moça trêmula. — Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado. — Esqueci‑me o restituir‑vos ontem o que não me pertence. — E ainda esse malfadado bracelete? — Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecília teima que é ele vosso. — Se meu é, vos peço que o aceiteis. — Não, Sr. Álvaro, não tenho direito. — Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe oferece seu irmão? — Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como lembrança vossa; não será adorno para mim, senão relíquia. O moço não respondeu; retirou‑se para cortar a conversa. Desde a véspera Álvaro não podia eximir‑se à impressão poderosa que causara nele a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para não se sentir profundamente comovido pelo amor ardente de uma mulher bela, e pelas palavras de fogo que corriam dos lábios de Isabel impregnadas de perfume e sentimento. Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do coração; ele não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antônio de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecília. Embora não esperasse mais realizar o seu sonho dourado, entendia que estava vigorosamente obrigado a sujeitar‑se a vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar‑lhe sua existência. Quando Cecília o repelisse abertamente, e D. Antônio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano. O único fato notável que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinham oferecer seus serviços a D. Antônio. Chegaram ao lusco‑fusco; à frente deles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um ano antes dera hospitalidade no seu pouso a Frei Ângelo di Luca. III VERME E FLOR Eram onze horas da noite. O silêncio reinava na habitação e seus arredores; tudo estava tranqüilo e sereno. Algumas estrelas brilhavam no céu; os sopros escassos da viração sussurravam na folhagem. Os dois homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o alcantil, sondavam a sombra espessa que se estendia pela aba do rochedo. O vulto majestoso de D. Antônio de Mariz passou lentamente pela esplanada, e desapareceu no canto da casa. O fidalgo fazia sua ronda noturna, como um general na véspera de uma batalha. Passados alguns momentos ouviu‑se cantar uma coruja no vale, junto da escada de pedra; um dos vigias abaixou‑se, e tomando dois pequenos seixos deixou‑os cair um depois do outro. O som fraco que produziu a queda das pedras sobre o arvoredo da várzea foi quase imperceptível; seria difícil distingui‑lo do rumor do vento nas folhas. Um instante depois um vulto subiu ligeiramente a escada, e reuniu‑se aos dois homens que faziam a guarda noturna:: — Tudo está pronto? — Só esperamos por vós. — Vamos! Não há tempo a perder. Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e um dos vigias, os três encaminharam‑se com todas as precauções para a alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros. Aí, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranqüilo; apenas via‑se luzir na soleira da porta do aposento de Aires Gomes a claridade de uma luz. Um dos três chegou‑se à entrada do alpendre, e esgueirando‑se pela parede perdeu‑se na escuridão que havia no interior. Os outros dois se dirigiam ao fim da casa, e ai ocultos pela sombra e pelo ângulo que formava um largo pilar do edifício, começaram um diálogo breve e rápido. — Quantos são? perguntou o homem que chegara. — Vinte ao todo. — Restam‑nos? — Dezenove. — Bem. A senha?. — Prata. — E o fogo? — Pronto. — Aonde? — Nos quatro cantos. — Quantos sobram? — Dois apenas. — Seremos nós. — Precisais de mim? — Sim. Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia refletir profundamente enquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça: — Rui, vós me sois dedicado? — Dei‑vos a prova. — Preciso de um amigo fiel. — Contai comigo. — Obrigado. O desconhecido apertou a mão de seu companheiro. — Sabeis que amo uma mulher? — Vós mo dissestes. — Sabeis que é mais por essa mulher do que por este tesouro fabuloso que concebi esse plano horrível? — Não; não o sabia. — Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sede meu amigo; servi‑me lealmente, e tereis a maior parte do meu tesouro. — Falei; que quereis que eu faça? — Um juramento; mas um juramento sagrado, terrível. — Qual? Dizei! — Hoje essa mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que O desconhecido hesitou. — Quero que nenhum homem possa amá‑la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ela pode dar. — Mas como? — Matando‑a! Rui sentiu um calafrio. — Matando‑a, para que a mesma cova receba nossos dois corpos; não sei por quê, mas parece‑me que ainda cadáver, o contato dessa mulher deve ser para mim um gozo imenso. — Loredano!... exclamou seu companheiro horrorizado. — Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando‑lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o tesouro que rejeitais! O aventureiro estava em lata com dois sentimentos opostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciência. — Jurais? perguntou Loredano. — Juro!... respondeu Rui com a voz estrangulada. — Avante então! Loredano abriu a porta do seu cubículo, e voltou algum tempo depois trazendo uma tábua longa e estreita que colocou sobre o despenhadeiro como uma espécie de ponte suspensa. — Ides segurar esta tábua, Rui. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou‑vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover‑se para que eu me precipite sobre os rochedos. O italiano achava‑se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janela de Cecília, onde não podia chegar por causa do ângulo que formavam o rochedo e o edifício. A tábua foi colocada na direção da janela; a primeira vez tinha‑lhe bastado o seu punhal; agora também necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Rui colocou‑se sobre a ponta da tábua, e segurando‑se a um frechal do alpendre manteve imóvel sobre o precipício essa ponte pênsil em que o italiano ia arriscar‑se. Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou‑se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôs o pé sobre a prancha. — Esperar‑me‑eis do outro lado, disse o italiano. — Sim, respondeu Rui com voz trêmula. A razão por que a voz de Rui tremia, era um pensamento diabólico que começava a fermentar no seu espírito. Lembrou‑lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para ver‑se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a tábua inclinar sobre o abismo. Entretanto hesitava; não que o remorso antecipado lhe exprobrasse o crime que ia cometer; já tinha‑se afundado muito no vício e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre os seus cúmplices tal prestigio e influência tão poderosa, que Rui não podia mesmo nesse momento esquivar‑se a ela. Loredano estava suspenso sobre o abismo pela sua mão; podia salvá‑lo ou precipitá‑lo no despenhadeiro; e contudo dessa posição ainda ele impunha respeito ao aventureiro. Rui tinha medo: não compreendia o motivo desse terror irresistível; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo. No entanto a imagem da riqueza esplêndida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrada; um pouco de coragem, e seria o único senhor do tesouro fabuloso, cujo era o italiano depositário do segredo. Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou três vezes o aventureiro teve um ímpeto de suspender‑se ao frechal, e deixar a tábua rolar no abismo; não passou de um desejo. Venceu afinal a tentação. Teve um momento de desvario: os joelhos acurvaram‑se; a tábua sofreu uma oscilação tão forte, que Rui admirou‑se de como o italiano se tinha podia suster. Então o medo desapareceu; foi substituído por uma espécie de raiva e frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a ousadia, como a vista do sangue excita a fera. Um segundo abalo mais forte agitou a tábua, que oscilou à borda do rochedo; porém não se ouviu o baque de um corpo; não se ouviu mais que o choque da madeira sobre a pedra. Rui, desesperado, ia soltar a prancha, quando chegou‑lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do italiano, que apenas se percebia no silêncio profundo da noite. — Estais cansado, Rui?... Podeis tirar a tábua; não preciso mais dela. O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espírito infernal que planava sobre o abismo, e escarnecia do perigo; um ente superior a quem a morte não podia tocar. Ele ignorava que Loredano, com a sua previdência ordinária, quando entrara no seu cubículo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar por um caibro do alpendre, que era de telha‑vã, a ponta de uma longa corda, que caiu sobre a parte de fora da parede uma braça distante da janela de Cecília. Assim, apenas deu o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano não se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que logo atou à cintura; então se o apoio lhe faltasse, ficaria suspenso no ar, e, embora com mais dificuldade, realizaria o seu intento. Foi por isso que os dois abalos produzidos pelo seu cúmplice não tiveram o resultado que ele esperava; logo do primeiro, Loredano adivinhou o que se passava na alma de Rui; mas não querendo dar‑lhe a perceber que conhecia a sua traição, serviu‑se de um meio indireto para dizer‑lhe que estava em segurança, e que era inútil a tentativa de precipitá‑lo. A tábua não fez mais um só movimento; conservou‑se imóvel como se estivera solidamente pregada ao rochedo. Loredano adiantou‑se, tocou a janela da moça, e com a ponta da faca conseguiu levantar a aldraba; as gelosias abrindo‑se afastaram as cortinas de cassa que vendavam o asilo do pudor e da inocência. Cecília dormia envolta nas alvas roupas do seu leito; sua cabecinha loura aparecia entre as rendas finíssimas sobre as quais se desenrolavam os lindos anéis dourados de seus cabelos. O doce amortecimento de um sono calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murilo; seu sorriso era apenas enlevo. O talho de sua anágua abrindo‑se deixava entrever um colo de linhas puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavam‑se sob a lençaria diáfana os seios mimosos. Tudo isto ressaltava como um quadro dentre as ondas de uma colcha de damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura transparente do linho os contornos harmoniosos e puros. Havia porém nessa beleza adormecida uma expressão indefinível, um quer que seja de tão casto e inocente, que envolvia essa menina no seu sono tranqüilo e parecia afugentar dela um pensamento profano. Chegando‑se à beira daquele leito, um homem ajoelharia antes como ao pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens brancas que protegiam a inocência. Loredano aproximou‑se, tremendo, pálido e ofegante; toda a força de sua vigorosa organização, toda a sua vontade poderosa e irresistível, estava ai vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que sentiu quando seu olhar ardente caiu sobre o leito, é difícil dizer, é talvez mesmo difícil de compreender. Foi a um tempo suprema ventura e horrível suplício. A paixão brutal o devorava escaldando‑lhe o sangue nas veias e fazendo saltar‑lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava. Sentia que o fogo queimava‑lhe o seio; sentia que seus lábios tinham sede de prazer; e a mão gelada e inerte, não se podia erguer, e o corpo estava paralisado; apenas o olhar cintilava e as narinas dilatadas aspiravam as emanações voluptuosas de que estava impregnada a sua atmosfera. E a menina sorria no seu plácido sono enleando‑se talvez nalgum sonho gracioso, nalgum dos sonhos azuis que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens. Era o anjo em face do demônio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vício. O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou‑se a um bufete e acendeu uma vela de cera cor‑de‑rosa. O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina colocada sobre uma cantoneira, iluminou‑se; e a imagem graciosa de Cecília apareceu cercada de uma auréola. Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado oposto continuou o sono, que nem fora interrompido. Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admirá‑la em toda a sua beleza; não se lembrava de nada mais, esquecera o mundo e seu tesouro: nem pensava no rapto que ia praticar. A rolinha que dormia sobre a cômoda no seu ninho de algodão ergueu‑se e agitou as asas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder. IV NA TREVA Alguns esclarecimentos são necessários aos acontecimentos que acabavam de passar. Quando Loredano viu‑se obrigado pela ameaça de Álvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou sucumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabólico tinha enrugado os seus lábios. Este sorriso era uma idéia infame que luzira no seu espírito como a flama desses fogos perdidos que brilham no seio das trevas em noites de grande calma. O italiano lembrou‑se que no momento em que todos o supunham em viagem, podia preparar a execução do seu plano que ele realizaria naquela mesma noite. Na conversa que tivera com Rui Soeiro transmitiu‑lhe as suas instruções, breves, simples e concisas; consistiam em livrarem‑se dos homens que podiam pôr embaraços à sua empresa. Para isso os seus cúmplices receberam ordem de quando se recolhessem para dormir, colocarem‑se ao lado de cada um dos homens da banda fiéis a D. Antônio de Mariz. Naquele tempo e naqueles lugares não era possível que os aventureiros tivessem cada um o seu cubículo; poucos gozavam desse privilégio, e assim mesmo eram obrigados a partilhar o seu aposento com um companheiro: os outros dormiam na vasta alpendrada que ocupava quase toda essa parte do edifício. Rui Soeiro tinha, conforme as instruções de Loredano, arranjado as coisas de tal modo que naquele momento cada um dos aventureiros dedicados a D. Antônio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia adormecido, e que só esperava ouvir pronunciar a senha convencionada para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro. Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha seca colocados junto das portas ou metidos pela beirada do telhado, e que só esperavam uma faisca para atear o incêndio em todo o edifício. Rui Soeiro, com uma sagacidade e uma prudência dignas de seu chefe, dispusera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da noite em que tudo estava recolhido. Não se esqueceu da recomendação especial de Loredano, e ofereceu‑se voluntariamente a Aires Gomes para fazer a guarda noturna com um dos seus companheiros, visto recear‑se ataque do inimigo; o digno escudeiro que o conhecia como um dos mais valentes da banda, caiu no laço e aceitou o oferecimento. Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente seus preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver‑se livre do escudeiro, que podia de um momento para outro vir incomodá‑lo. Aires Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvaziava uma botelha de vinho de Valverde, que eles bebiam lentamente, trago a trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado a umedecer as goelas de dois formidáveis bebedores. Mestre Nunes aplicou voluptuosamente os lábios à borda do canjirão, tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a língua no céu da boca, repimpou‑se na tripeça em que estava sentado, cruzando as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste. — Ora estou desde que cheguei para perguntar‑vos uma coisa, amigo Aires; e sempre a passar. — Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me tendes para responder‑vos — Dizei‑me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais um diabo de nome que não é português? — Ah! quereis falar de Loredano? Um tunante? — Conheceis esse homem, Aires? — Por Deus! se ele é dos nossos! — Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem era e o que fazia? — À fé que não! Apareceu‑nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e depois como saísse um homem, ficou em lagar dele. — E quando isso, se vos lembra? — Esperai! Estou com os meus cinqüenta e nove... O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendário, que era a sua idade. — Foi por este tempo, há um ano; princípios de março. — Estais bem certo? exclamou mestre Nunes. — Certíssimo; é conta que não engana. Mas que tendes? Com efeito mestre Nunes se erguera espantado. — Nada! Não é possível! — Não acreditais? — É outra coisa, Aires! É um sacrilégio! uma obra de Satã! uma simonia horrenda! — Que dizeis, homem, explicai‑vos lá de uma vez. Mestre Nunes conseguiu restabelecer‑se da sua perturbação e contou ao escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Ângelo di Luca e da sua morte, que nunca fora possível explicar: notou‑lhe a coincidência do desaparecimento do carmelita com o aparecimento do aventureiro, e o fato de serem da mesma nação. — Depois, concluiu Nunes, aquela voz, aquele olhar!... quando o vi hoje, estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha saído de baixo da terra. Aires Gomes levantou‑se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o espadão que tinha à cabeceira. — Que ides fazer? gritou mestre Nunes. — Matá‑lo e desta vez às direitas; que não torne. — Esqueceis que vai longe? — É verdade, murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva. Ouviu‑se um ligeiro rumor na porta; os dois amigos o atribuíram ao vento e não se voltaram; sentados em face um do outro, continuaram em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de Nunes. Entretanto fora passavam‑se coisas que deviam excitar a atenção do digno escudeiro. O rumor que ouvira fora produzido pela volta que Rui dera à chave, fechando a porta. O aventureiro tinha ouvido toda a conversa; a princípio aterrado, cobrou animo, e lembrou‑se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo do italiano para qualquer emergência futura. Confiado nessa excelente idéia, Rui meteu a chave no peito do gibão e foi reunir‑se a seu companheiro que estava de vigia junto da escada. Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir toda essa trama que havia urdido com uma inteligência superior. O italiano tinha facilmente iludido a D. Diogo de Mariz; sabia que o ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho por motivo algum. As três léguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter‑se quebrado a cilha de sua cavalgadura e parou para arranjá‑la; enquanto D. Diogo e seus companheiros pensavam que os seguia de perto, ele tinha voltado sobre os passos, e escondido nas vizinhanças, esperava que a noite se adiantasse. Quando percebeu que tudo estava em silêncio, aproximou‑se; trocou o sinal convencionado, que era o canto de coruja; e introduziu‑se furtivamente na habitação. O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e pronto ao primeiro sinal, Loredano deu começo à execução de seu projeto e conseguiu penetrar no quarto de Cecília. Tomar a menina nos braços, raptá‑la, atravessar a esplanada, chegar à porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era coisa que ele contava realizar num momento. Quando Cecília arrancada do seu leito lançasse um grito que ele não pudesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguém despertasse, teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro viriam em seu socorro. Rui lançaria a chama à palha preparada para esse fim; e a faca de cada um dos seus cúmplices se enterraria na gorja dos homens adormecidos. Depois, no meio desse horror e confusão, os vinte demônios acabariam a sua obra, e fugiriam como os maus espíritos das lendas antigas, quando a primeira luz da alvorada terminava o sabbat infernal. Iam ao Rio de Janeiro; ai, ligados todos por um mesmo laço do crime, por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter neles agentes fiéis e dedicados para levar a cabo a sua empresa. Enquanto a traição solapava assim o sossego, a felicidade, a vida e a honra dessa família, todos dormiam tranqüilos e descuidados; nem um pressentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava. Loredano, graças à sua agilidade e à sua força, tinha conseguido chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor traísse a sua presença, sem que na habitação alguém tivesse podido perceber o que se passava. Certo pois do resultado, o italiano advertido pela inocente avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consumar a sua obra. Abriu a cômoda de Cecília, tirou roupas de seda e linho e fez de tudo isso um embrulho tão pequeno quanto era possível; depois envolveu‑o em uma das peles que serviam de tapete, e colocou numa cadeira, a jeito de o poder apanhar com facilidade. Era coisa original o pensamento deste homem. Ao passo que cometia um crime, tinha a lembrança delicada de querer suavizar a desgraça da menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incômoda que tinha de fazer. Quando tudo estava preparado, abriu a portinha que dava para o jardim, e estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas tomasse Cecília nos braços devia partir e chegar de uma só corrida, direita, rápida e cega. A porta ficava num canto do aposento, defronte do vão que havia entre o leito e a parede; colocado nesse lagar não tinha senão um movimento a fazer, agarrar a menina e lançar‑se fora do aposento. Na ocasião em que ele se aproximava, ouviu‑se um gemido, quase um suspiro,‑ abafado e cheio de angústia. Os cabelos eriçaram‑se sobre a fronte do italiano; gotas de suor frio e gelado sulcaram as suas faces pálidas e contraídas. A pouco e pouco foi saindo do estupor que o paralisara, e volvendo lentamente ao redor de si uns esgares de olhos alucinados. Nada! Nem um inseto parecia acordado na solidão profunda da noite em que tudo dormia exceto o crime, o verdadeiro duende da terra, o mau gênio das crenças de nossos pais. Tudo estava em sossego; até o vento parecia se ter abrigado no cálice das flores e adormecido nesse berço perfumado, como num regaço de amante. O italiano restabeleceu‑se do violento abalo que sofrera, deu um passo, e inclinou‑se sobre o leito. Cecília sonhava nesse momento. Seu rosto esclareceu‑se com uma expressão de alegria angélica; sua mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu‑se com a indolência e a moleza do sono e recaiu sobre a face. A pequena cruz de esmalte que tinha ao colo e que estava agora presa entre os dedos da mão, roçou‑lhe os lábios; e uma música celeste escapou‑se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa eólia. Foi a princípio um sorriso que adejou‑lhe nos lábios; depois o sorriso colheu as asas e formou um beijo, por fim o beijo entreabriu‑se como uma flor e exalou um suspiro perfumado. — Peri! O colo arfou docemente, e a mão descaindo foi de novo aninhar‑se entre o talho da sua anágua de cambraia. O italiano ergueu‑se pálido. Não se animava a tocar naquele corpo tão casto, tão puro; não podia fitar aquela fisionomia radiante de inocência e de candura. Mas o tempo urgia. Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho à borda do leito, fechou os olhos e estendeu as mãos. V DEUS DISPÕE O braço de Loredano estendeu‑se sobre o leito; porém a mão que se adiantava e ia tocar o corpo de Cecília estacou no meio do movimento, e subitamente impelida foi bater de encontro à parede. Uma seta, que não se podia saber de onde vinha, atravessara o espaço com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibilo forte e agudo pregara a mão do italiano ao muro do aposento. O aventureiro vacilou e abateu‑se por detrás da cama; era tempo, porque uma segunda seta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez, cravava‑se no lugar onde há pouco se projetava a sombra de sua cabeça. Passou se então, ao redor da inocente menina adormecida na isenção de sua alma pura, uma cena horrível, porem silenciosa. Loredano nos transes da dor por que passava, compreendera o que sucedia; tinha adivinhado naquela seta que o ferira a mão de Peri; e sem ver, sentia o índio aproximar se terrível de ódio, de vingança, de cólera e desespero pela ofensa que acabava de sofrer sua senhora. Então o réprobo teve medo; erguendo‑se sobre os joelhos arrancou convulsivamente com os dentes a seta que pregava sua mão à parede, e precipitou‑se para o jardim, cego, louco e delirante. Nesse mesmo instante, dois segundos talvez depois que a última flecha caíra no aposento, a folhagem do óleo que ficava fronteiro à janela de Cecília agitou‑se e um vulto embalançando‑se sobre o abismo, suspenso por um frágil galho da árvore, veio cair sobre o peitoril. Aí agarrando‑se à ombreira saltou dentro do aposento com uma agilidade extraordinária; a luz dando em cheio sobre ele desenhou o seu corpo flexível e as suas formas esbeltas. Era Peri. O índio avançou‑se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou; com efeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano, voltara‑se do outro lado e continuara o sono forte e reparador como é sempre o sono da juventude e da inocência. Peri quis seguir o italiano e matá‑lo, como já tinha feito aos seus dois cúmplices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo insulto, como o que acabava de sofrer, e tratou antes de velar sobre sua segurança e sossego. O primeiro cuidado do índio foi apagar a vela, depois fechando os olhos aproximou‑se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de damasco azul até ao colo da menina. Parecia‑lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os encantos que o pudor de Cecília trazia sempre vendados; pensava que o homem que uma vez tivesse visto tanta beleza, nunca mais devia ver a luz do dia. Depois desse primeiro desvelo, o índio restabeleceu a ordem no aposento; deitou a roupa na cômoda, fechou a gelosia e as abas da janela, lavou as nódoas de sangue que ficaram impressas na parede e no soalho; e tudo isto com tanta solicitude, tão sutilmente, que não perturbou o sono da menina. Quando acabou o seu trabalho, aproximou‑se de novo do leito, e à luz frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de Cecília. Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salvá‑la de uma ofensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê‑la tranqüila e risonha sem ter sofrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentiu a necessidade de exprimir‑lhe por algum modo a sua ventura. Nisto seus olhos abaixando‑se descobriram sobre o tapete da cama dois pantufos mimosos forrados de cetim e tão pequeninos que pareciam feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou‑os com respeito, como se foram relíquia sagrada. Eram então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as estrelas já iam se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder o silêncio profundo da natureza quando dorme. O índio fechou por fora a porta do quarto que dava para o jardim, e metendo a chave na cintura, sentou‑se na soleira como cão fiel que guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguém aproximar‑se. Aí refletiu sobre o que acabava de passar; e acusava‑se a si mesmo de ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora: Peri porem caluniava‑se, porque só a Providência podia ter feito nessa noite mais do que ele; porque tudo quanto era possível à inteligência, à coragem, à sagacidade e à força do homem, o índio havia realizado. Depois da partida de Loredano e da conversa que teve com Álvaro, certo de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dois cúmplices do italiano iam ser expulsos como ele, o índio não pensando mais senão no ataque dos Aimorés, partiu imediatamente. O seu pensamento era ver se descobria pelas vizinhanças do Paquequer indícios da passagem de alguma tribo da grande raça Guarani a que ele pertencia; seria um amigo e um aliado para D. Antônio de Mariz. O ódio inveterado que havia entre as tribos da grande raça e a nação degenerada dos Aimorés, justificava a esperança de Peri; mas infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestígio do que procurava. O fidalgo estava pois reduzido às suas próprias forças: mas embora fossem estas pequenas, o índio não desanimou; tinha consciência de si; e sabia que na última extremidade a sua dedicação por Cecília lhe inspiraria meios de salvar a ela e a tudo que ela amava. Voltou à casa já noite fechada; foi ter com Álvaro; perguntou‑lhe o que era feito dos dois aventureiros; o cavalheiro disse‑lhe que D. Antônio de Mariz recusara crer na acusação. De fato, o fidalgo leal, habituado ao respeito e à fidelidade de seus homens, não admitia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto como a palavra de Peri tinha para ele toda a valia, ficara de ouvir de sua boca a narração do que presenciara, para conhecer o peso que devia dar a semelhante acusação. Peri retirou‑se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu primeiro projeto; enquanto esses dois homens que ele supunha já expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa. Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou‑se na porta de sua cabana; apesar de possuir a clavina que lhe dera D. Antônio, o arco era a arma favorita de Peri; não demandava tempo para carregar; não fazia o menor estrépito; lançava quase instantaneamente dois, três tiros: e a sua flecha era tão terrível e tão certeira como a bala. Passado muito tempo o índio ouviu cantar uma coruja do lado da escada; esse canto causou‑lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era mais sonoro do que é o cacarejar daquela ave agoureira; a segunda porque em vez de partir do cimo de uma árvore saia do chão. Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha hábitos diferentes de suas companheiras; quis conhecer a razão desta singularidade. Viu do outro lado da esplanada três vultos que atravessavam ligeiramente; isto aumentou a sua desconfiança; os homens de vigia eram ordinariamente dois e não três. Seguiu‑os de longe; mas quando chegou ao pátio, não viu senão um dos homens que entrava na alpendrada; os outros tinham desaparecido. Peri procurou‑os por toda a parte e não os viu; estavam ocultos pelo pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possível descobri‑los. Supondo que tivessem também entrado no alpendre, o índio agachou‑se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que conheceu imediatamente ser a folha de um punhal. — És tu, Rui? perguntou uma voz sumida. Peri emudeceu; mas de chofre aquele nome de Rui lembrou‑lhe Loredano e o seu projeto; percebeu que se tramava alguma coisa: e tomou um partido. — Sim! respondeu com a voz quase imperceptível. — Já é hora? — Não. — Todos dormem. Enquanto trocavam estas duas perguntas, a mão de Peri correndo pela lâmina de aço |